01/06/11

EM LIVRO



A Editora do Conhecimento disponibiliza o texto Espíritos nas Escolas em formato de livro. A iniciativa vem daando uma grande contribuição ao esforço que hoje fazem os educadores no sentido de preservar os valores da educação fundamentada no amor ao próximo, na solidariedade e na fraternidade, ensinada pelas maioria das religiões e filosofias espiritualistas.

O livro de 112 páginas está disponível para venda no site da editora.

07/12/08

Aos colegas educadores


Este ensaio é dedicado especialmente aos professores, colaboração simples de um colega de sala de aula falando de coisas que experimentamos no trabalho cotidiano nas escolas; nós que, já faz algum tempo, descobrimos que os melhores e verdadeiros conselheiros são os nossos próprios alunos...

Sumário1. Onde estão os Espíritos?

2. A cultura espiritual na escola

3. Professor transversor

4. Renascer e ressurgir na escola

5. Professor, médium e mentor

6. Nosso planeta, nossa escola

7. A escola como espaço mental

8. Ser, o verbo espiritual - Professsor Lucificador


Conteúdos abordados neste ensaio:

As interfaces da dicotomia espírito-matéria na sala de aula e no cotidiano escolar;

A exploração do novo paradigma do Espírito e a demonstração da influência natural e constante do universo espiritual no mundo escolar;

A utilização desse conhecimento para a melhoria das atividades escolares como o desempenho dos educadores e educandos;

A harmonia das relações entre os membros da comunidade escolar e finalmente a integração entre a escola o entorno social;

Conteúdos específicos: Espiritismo, Espiritualidade, Educação, Religiosidade;

Conteúdos genéricos: o novo universo escolar, a pós-modernidade
e a globalização, mediunidade, reencarnação, sexualidade, choque cultural e de gerações.

01/12/07

Onde estão os Espíritos




O interesse pelo contato com Espíritos persiste entre os jovens e vai muito além da diversão e da mera curiosidade. Ele revela também um interesse real pela espiritualidade e a vocação mediúnica dos participantes. Imagem: Espiritismo, Editora Abril.
 
459 - Os Espíritos influem sobre nossos pensamentos e ações

- A esse respeito, sua influência é maior do que podeis imaginar. Muitas vezes são eles que vos dirigem. - Allan Kardec - O Livro do Espíritos -1857



Para ir direto ao assunto: onde está a espiritualidade[1] na escola? Como essa espiritualidade pode ser explorada sem riscos e se reverter em auxílio às nossas atividades escolares?
A resposta é bem simples. Se os espíritas freqüentam os centros espíritas porque acreditam que ali existe uma escola na qual são alunos e nela existem mentores que protegem, ensinam e educam, por que isso seria diferente nas escolas comuns? É só aplicar o método positivo de Allan Kardec:

§ Nas escolas existem Espíritos desencarnados?
§ Nas escolas podem ocorrer fenômenos espíritas?
§ Esses fenômenos são regulares, podem ser observados, explicados e divulgados?
§ Nas escolas surgem especulações filosóficas acerca desses fenômenos?

§ Nas escolas podem ocorrer transformações morais e sociais decorrentes desses questionamentos filosóficos?

Concluindo: a mesma espiritualidade encontrada nos centros espíritas pode ser encontrada nas escolas ou em qualquer ambiente de trabalho. É só consultar os bons manuais de navegação espiritual e constatar que as circunstâncias são semelhantes, os problemas são iguais e as soluções podem ser idênticas.

Em O Livro dos Espíritos[2] constam, entre tantas outras reflexões sobre espiritualidade e ética , algumas questões que versam diretamente sobre a relação entre matéria e espírito, estreitamente ligadas aos nossos propósitos educativos.

Mas foi num ensaio científico do Espírito André Luiz[3] - Evolução em Dois Mundos - psicografado por Chico Xavier, que encontramos uma informação bem ilustrativa desse nosso tema. Trata-se de um comentário sobre as nossas atividades mentais durante o sono e o desprendimento do corpo físico, através da mediunidade espontânea. Nesses casos certamente não ficariam de fora nós os professores, os alunos, os funcionários e os gestores das escolas.

“É assim que o lavrador, no repouso físico, retorna, em corpo espiritual, ao campo em que semeia, entrando em contacto com as entidades que amparam a Natureza; o caçador volta para a floresta; o escultor regressa, freqüentemente, no sono, ao bloco de mármore de que aspira a desentranhar a obra-prima; o seareiro do bem volve à leira de serviço em que se lhe desdobra a virtude, e o culpado torna ao local do crime, cada qual recebendo de Espíritos afins os estímulos elevados ou degradantes de que se fazem merecedores.”

Mas esse nosso retorno mental à escola pode e deve ser desvinculado das características alienadas da mediunidade primitiva para práticas psíquicas mais arrojadas e conscientes. É possível nos prepararmos para encontros treinados e produtivos, nos moldes dos desdobramentos, na qual se pratica o exercício da memorização e maior aproveitamento das informações obtidas no plano espiritual.

É sempre bom lembrar que todos nós somos Espíritos e médiuns, em maior ou menor grau, encarnados ou desencarnados, crianças ou jovens, adultos ou idosos, somos os mesmos, com virtudes e defeitos, hábitos e gostos, jeitos e trejeitos. Estamos em toda parte, onde existir vida em sociedade, simples e ignorantes ou complexos e cultos, em constante interação de pensamentos, ações e sentimentos. Às vezes mudamos de aparência, mas na essência continuamos sendo as mesmas criaturas; mudamos de ponto de vista sobre algumas coisas da vida, de opinião sobre alguns assuntos desse ou daquele contexto, mas continuamos os mesmos. Só mudamos de fato quando transformamos os nossos sentimentos e atitudes sobre as coisas e as pessoas. Isso realmente nos transforma em outras pessoas, a ponto de não sermos reconhecidos por quem nos conheceu antes. Quem te viu, quem te vê, heim? Não nos identificamos mais com aquela pessoa do passado, pois adquirimos uma nova identidade. Não são aparências ou máscaras, é mudança real mesmo. No corpo carnal acontecem as mudanças biológicas, transitórias, pelos regimes alimentares, exercícios físicos, rejuvenescimento ou envelhecimento. No corpo espiritual essa mudança é diferente e duradoura: ocorre uma iluminação natural, causada pela mudança nas estruturas do perispírito[4], através do brilho dos centros de força (chacras), que são uma espécie de glândulas etéricas de captação e distribuição de energias e que refletem em forma de luz e cores, formando também a nossa aura. Nesse caso o espanto de quem nos vê modificado é redobrado. O problema é que as mudanças reais só acontecem depois de grandes transtornos e perturbações, dores causadas por choques de provas e expiações. Todo Espírito encarnado sabe disso, pois traz essa informação guardada no inconsciente, entre a zona de conforto e a zona de perigo. Temos conosco, cada qual com a sua marca, uma equação existencial para ser solucionada em algum momento da vida. Todos nós sabemos que, mais cedo ou mais tarde, esse momento vai chegar, mesmo que não tenhamos uma lembrança consciente dos compromissos que assumimos antes de reencarnar. É para isso que serve as existências e é também por isso que nos matriculamos na Escola da Vida.

Quem vê ou percebe a presença de Espíritos têm dois tipos de sensação: medo e tristeza, quando estes estão estacionados em sofrimento; ou espanto e alegria, quando nos deparamos com entidades iluminadas, felizes, cuja superioridade natural nos causa emoção como o choro e entusiasmo. Poucas pessoas percebem, mas quando recebermos a visita de Espíritos apagados, em crise e sofrimento, também temos predisposição em apagar a nossa luz. Quando são Espíritos lucificados, inexplicavelmente ficamos imensamente alegres. Até mesmo os animais que estão por perto têm esse tipo de percepção. São situações que não dependem de fórmulas ou amuletos e muito mais do nosso estado emocional. O pensamento atrai e inicia a ligação; e o sentimento consolida o contato. A espiritualidade está em toda parte, seja como estado de espírito, seja como fenômeno natural. A primeira é muito útil para manter a paz de espírito, a serenidade, a calma. É, enfim, a meditação, a imagem e o imaginário da espiritualidade, a oração, a base da sintonia. A segunda, nessa perspectiva do conflito exterior, também é muito útil, pois é a vigilância, a realidade e o contato direto com os Espíritos. Muitos educadores são crentes naturais, mas uma grande maioria age como Tomé, precisando ver para crer. Daí a nossa idéia de buscar uma espiritualidade mais objetiva e inteligente, fugindo da superstição e do dogma. Essa possibilidade acontece nas experiências de algumas escolas espiritualistas, ainda de forma subjetiva e nebulosa, mas no Espiritismo ela ocorre de forma clara, científica e sem o misticismo supersticioso e o véu do mistério. Ao contrário das outras correntes, não falamos com os mortos e sim com os vivos, mais vivos do que nós. Espíritos são seres inteligentes e devem ser tratados como tal, sem as marcas obscuras da superstição e da atitude passiva oracular ou advinhatória. O apóstolo João recomendava aos seus alunos que verificassem se os Espíritos eram de Deus, ou seja, se eram bem ou mal intencionados. Isso prova que o contato com a espiritualidade é mais antiga e comum do normalmente se pensa. Também alertava que a nossa relação com eles deve ser de igual para igual, em termos de racionalidade. Espíritos superiores não se ofendem quando são questionados ou colocados em xeque. Pelo contrário, ficam contentes com a nossa espontaneidade e responsabilidade no trato com as coisas da vida. Já os pseudo-sábios ficam ofendidos e deslizam dos questionamentos utilizando expedientes que mexem com as nossas fraquezas: divagações poéticas de mau gosto, profecias absurdas, afirmações incoerentes e, principalmente, as posturas de incentivo ao medo e à superstição , aos rituais e fórmulas mágicas.


(1) Os termos espiritualidade e espiritual aqui são empregados de forma genérica para definir o universo físico e metafísico, os seres inteligentes encarnados e desencarnados, a pluralidade de mundos e planos habitados por eles, bem como as diversas condições mentais ou emocionais em que se encontram.

[2] No Capítulo IX - Intervenção dos Espíritos no mundo corporal ( por exemplo nas questões 456,459, 466); no Capítulo X - Ocupações e missões dos Espíritos ( questões 567, 568, 569, e 575 a 580); e na emancipação da alma (Espíritos encarnados, questões de 401 a 404, 414 a 417 e 419).

[3] Médico desencarnado no Rio de Janeiro no início do século XX, descreveu pela primeira vez em detalhes impressionantes a vida em algumas colônias espirituais. Essa descrição culta e compatível com a obra conceitual de Allan Kardec foi publicada numa série de livros psicografados pelo médium Chico Xavier.

[4] Do grego, péri , ao redor. Envoltório semimaterial do Espírito. Entre encarnados e desencarnados serve de liame ou intermediário entre o Espírito e a matéria. Entre os Espíritos errantes constitui o corpo fluídico do Espírito. Allan Kardec - O Livro dos Médiuns. Vocabulário Espírita. Nota do autor: O perispírito é conhecido desde a Antiguidade, pois as aparições de Espíritos sempre existiram e foram alvo de curiosidade e estudo por parte dos seres humanos. Os Egípcios chamavam-no de “Kha” e o apóstolo Paulo de “corpo espiritual”.


 

Magali numa viagem astral: exercício natural para a "morte" todas as noites.

A Cultura Espiritual na Escola

Alunos curiosos: toda pergunta merece uma resposta.


Primeiramente devemos lembrar que praticamente todas escolas têm gravado em suas identificações o nome e a lembrança de personalidades históricas e de inúmeros professores que já fizeram sua passagem para o mundo espiritual. Quadros com fotografias antigas, estátuas e outros objetos recordam constantemente aos que ficaram que um dia eles foram alunos ou educadores. Muitos deles hoje já estão reencarnados e labutam nas mesmas atividades onde falharam ou tiveram êxito, renovando e enriquecendo suas experiências evolutivas. Essa é a cultura da Memória (Mnemósine), o próprio espírito do tempo (Cronos) e da História (Clio).

Por outro lado temos também a cultura dos costumes e das mentalidades.

Quem não conhece a história da Loira do banheiro que, nos anos 70, apavorou toda uma geração de estudantes e que na década seguinte foi substituída pelo saudoso Fred Krugger?

Pois é.... sempre que esse assunto vem à tona nas salas de aula a maioria dos professores e alunos apelam para a razão e rotulam o tema de superstição e bobagem. Mas também sempre aparece alguém que dá um sorrisinho malicioso para lembrar que nem tudo é bobagem e superstição. Ao ser levantada essa hipótese, imediatamente o clima da conversa toma outros rumos diante dos olhares atentos e fisionomias de espanto.

Depois que os filmes de terror foram substituídos por roteiros espíritas, como “O Sexto Sentido” e “Os outros”, as conversas sobre esses assuntos não são mais as mesmas. Depois que o menino que vê gente morta em todos os lugares, principalmente naquela cena em que ele acessa no éter a imagem de antigos moradores enforcados nas vigas do telhado da escola, não sobraram muitos argumentos para os céticos. Nesses instantes alguns alunos, geralmente as meninas, começam a contar suas experiências “sobrenaturais”, enquanto outros, geralmente meninos, iniciam uma campanha de ridicularização dos relatos. Outros, meninos e meninas, permanecem em silêncio, atentos, como expectadores de um jogo perigoso à espera de um resultado nada previsível. Aí, então, vêm as perguntas fatais:

- O senhor já viu ou conversou com Espíritos”?

- Qual a sua religião?

- Professor, o senhor acredita em reencarnação?

O professor, acuado entre o dever e o prazer, entre a cautela e a ousadia, olha para a porta da sala, para ver se não está sendo vigiado, e aqueles poucos segundos antes de dar a sua resposta se transformam em anos de dúvidas e incertezas: “Será que devo responder? Devo me omitir? O que devo dizer? Como poderei responder? Qual será a repercussão da minha fala? Quais as conseqüências do meu ato?

As escolas são lugares tidos como neutros, locais públicos de muitas possibilidades, mas também, por isso mesmo, de muitas proibições. Numa escola, onde naturalmente se estabelece um jogo de poder entre quem educa e quem vai ser educado, quem vai ensinar e quem vai aprender, entre quem vai avançar e quem vai recuar, acaba predominando a lei do mais forte, ideologicamente falando.

Numa escola, ambiente supostamente neutro e público, mesmo que seja escola particular, quem tem conhecimento realmente tem poder. Por isso, nesse ambiente nem tudo que é público deve ser notório; nem tudo que é possível deve ser realizado. Esse é o paradigma dominante; esse é o paradigma que atualmente não deve ser desafiado, mas que pode ser mudado. O paradigma dominante é o da matéria; e o novo a ser implantado é o do espírito. Tocar no assunto espiritualidade em ambientes neutros talvez seja mais tabu do que em lugares assumidamente contrários ao assunto. Nessas situações a timidez rapidamente se transforma em receio e este deságua fatalmente na omissão. Pronto: lá se foi mais uma oportunidade de falar sobre as coisas que habitualmente não podem ser ditas, mas que a gente tanto gostaria de falar. Como na música de Fátima Guedes, trilha sonora na primeira versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo, falando de fadas, gnomos e duendes, “São segredos nossos, quisera falar das coisas que não posso...”. Não podemos esquecer que o paradigma científico também é repleto de ideologia, veículo histórico, como as religiões tradicionais, de idéias das classes dirigentes e dominantes que camuflam interesses muito específicos. Quando se proíbe a manifestação da ideologia religiosa e espiritualista nas escolas alega-se que não se trata de temática científica (como se esta estivesse acima de qualquer suspeita ), pois esse tipo de proselitismo é injusto, pois os alunos não têm como reagir e contestar a influência da autoridade do educador. Ora, seguindo esse mesmo raciocínio, por acaso os alunos possuem condições de criticar e contestar o proselitismo científico, carregado de elementos ideológicos particulares dos educadores? Outro detalhe importante: a maioria absoluta de alunos e educadores acreditam em Deus e professam algum tipo crença religiosa. São constantemente treinados mentalmente em suas bases religiosas para rejeitar discursos novos e ameaçadores às suas ideologias. Alguns realizam verdadeiras ginásticas de racionalidade intelectual para neutralizar idéias consideradas perigosas. O exemplo mais conhecido é o choque criacionismo versus evolucionismo
[1]. Portanto, quem é o peixe fora d’água nessa história? A ciência divulgada no ambiente escolar, nesse caso, têm sido útil apenas para esconder a verdade e não para desmistificar as coisas superadas e apontar novos rumos de mentalidade, que seria seu verdadeiro papel educativo. O problema é que a chamada ciência oficial, acadêmica, bem como seus corifeus humanos e imperfeitos, não está preparada para encarar paradigmas que desafiam sua própria credibilidade.

Mesmo que esses ambientes neutros estejam saturados de espiritualidade, no sentido de abundância fenomenal , quando intentamos quebrar o gelo, surge uma reação espontânea que nos alerta sobre os riscos de ousar num território proibido, que já possui domínio e forte tradição conservadora. É o terreno do materialismo, senhor e soberano das meias verdades, onde não há cabimento e sentido para as coisas do espírito. É o conhecido mundo de César, onde não há espaço para o desconhecido mundo de Deus. Aliás, existe sim, desde que seja o pensamento credenciado, institucional e já reconhecido como idéia “oficial”, já contaminada pelas meias verdades. O Deus e o Homem da tradição mitológica das religiões antigas são permitidos, pois não representam nenhuma ameaça ao avançado sistema tecnológico. O Homem da tradição zoológica darwinista também é permitido nas escolas, mesmo que seja uma ameaça ao sistema dogmático. Isso se faz com uma solução simplista e política: uma coisa é fé e outra coisa é ciência. Separando bem essas duas coisas, não haverá questionamentos nem conflitos... Mas o Deus Cósmico de Spinoza e do universo quântico de Einstein, ou seja, a Mente Universal em constante Criação e Expansão, ainda é assunto proibido, pois essa quebra de paradigma ainda não foi digerida pelos religiosos, muito menos pelos cientistas de plantão. Falar de um Deus que não seja humano velho e barbudo, de um universo que não seja mecânico e previsível, de outras dimensões e percepções extra-sensoriais que não sejam a dos cinco sentidos, de seres extra-terrestres que não sejam anjos ou demônios ou formas esdrúxulas e suas esquisitas espaçonaves da ficção científica, tudo isso nos assusta e nos faz recuar, como os hereges escaldados. Esse medo se agrava quando estamos em ambientes de uso coletivo e qualquer manifestação mais atrevida pode ser rotulada de sobrenatural ou então de ação isolada e individual. Reparando bem, olhando bem de perto, ninguém é absolutamente normal. Mas não queremos correr o risco de sermos taxados de loucos ou perturbados. Sem contar os reacionários, inimigos espontâneos e gratuitos da razão, sempre prontos a defender a tradição que eles mesmos não aprovam ou acreditam.

A escola como espaço de conhecimento ampliou muito a sua natureza neutra, e também através do aumento da diversidade de freqüentadores e da pluralidade cultural conseqüente dessa freqüência diversa. Paradoxalmente, esse fator também ampliou a proibição e o tabu, pois o que antes era exclusivo das idéias oficiais, passou a ser de todos e agora é de ninguém, no sentido mais amplo e inibidor, até vergonhoso, de que não pode, não deve, não é sadio, não é viável nem recomendável. Um exemplo disso é a recente tentativa de oficializar o ensino religioso. A idéia partiu do clero educacional católico, preocupado com a expansão protestante, baseada em estatísticas e também na crença de que o catolicismo é a preferência religiosa da maioria dos brasileiros. É a preferência formal, pelo hábito cartorial de estar vinculado a uma instituição, mas não é a preferência habitual e de fé, pois as mesmas estatísticas mostram outros hábitos e crenças na população brasileira e que não constam no credo católico e protestante. A medida legal foi posta goela abaixo como lei votada no Parlamento, porém quando chegou nas escolas teve o mesmo destino dos decretos e bulas: passou pelo crivo racional e teve que se adaptar ao modelo curricular vigente, ou seja, virou História das Religiões ou tema transversal, simples pretexto para o diálogo inter-religioso. Como este último é do interesse de uma minoria insignificante, a disciplina tornou-se apenas mais uma alternativa de renda financeira através de algumas horas-aula a mais. O ensino religioso já nasceu morto. Já a espiritualidade permanece viva, mas continua proibida aos tímidos, porém não aos atrevidos, pois o ambiente continua transbordando...

Em todas as sociedades humanas encontramos fartos exemplos da cultura espiritualista, geralmente camuflada em forma de mitos e metáforas. Essa tradição sempre foi explorada artisticamente pela literatura infanto-juvenil. Walt Disney levou essa cultura para o cinema, através do desenho animado, e até hoje a empresa que ele fundou mantém essa linha de conteúdos espiritualistas ou de forte reflexão existencial. No Brasil essa abordagem teve a preciosa contribuição do escritor Monteiro Lobato e também de um conhecido discípulo de Disney, o cartunista Maurício de Souza. Não podemos esquecer um importante aliado cultural, tipicamente brasileiro, a favor da educação para a espiritualidade. Aqui também aconteceu um fenômeno histórico que abriu definitivamente as portas para essa outra dimensão do universo, apesar do stablishment repressivo imposto pelo clero católico desde o período colonial, e também a pseudo-proibição “científica” do legalismo educacional. Trata-se da miscigenação racial e da mistura de crenças e costumes ocorridas em mais de 500 anos de história. Desse longo e intenso convívio entre índios, negros e brancos, ainda que pesasse o predomínio político do elemento europeu, resultou no campo da cultura espiritual o sincretismo religioso brasileiro, no qual herdamos do indígena e do africano as crenças mágicas das selvas: o curandeirismo natural e fraterno, as práticas medianímicas
[2] e ritualísticas da comunicação com Espíritos ancestrais e finalmente, o misticismo simples e sincero do cristianismo praticado em Portugal. Costumamos exemplificar essa mistura irreversível de costumes no clima do carnaval, em cuja origem imaginamos o encontro “casual” da dança indígena, do lundu dos escravos e de uma procissão católica, formando uma apoteose cultural chamada Brasil. Tirando a irreverência e a falta de compromisso da festa carnavalesca, o que sobra é a espiritualidade primitiva praticada nos terreiros de candomblé - e mais recentemente da umbanda , onde Espíritos africanos e indígenas se confraternizam para orientar e proteger seus descendentes, credores e devedores, incluindo milhares de almas lusitanas que causaram danos a eles no período da escravidão colonial. Com a chegada do Espiritismo no século XIX, pela moda burguesa das mesas girantes[3]” trazidas de Paris por franceses que moravam no Brasil ou por brasileiros curiosos que lá estavam, esse contato com espiritualidade adquiriu novos ares de liberdade filosófica e ciência experimental, inclusive com a participação de sacerdotes católicos interessados pela nova revelação espiritual, na medicina homeopática e também no socialismo utópico. Estes últimos foram estimulados no Brasil pelas 200 famílias trazidas da França para instalar uma colônia fourrierista em Santa Catarina, em 1842. Como se sabe, os socialistas Fourrier e Saint-Simont, Robert Owen e o médico Benoit-Julles Mure [4](fundador da colônia catarinense) , eram espiritualistas e reencarnacionistas convictos. O próprio imperador Pedro II, que permitiu a vinda desses imigrantes franceses para o Brasil, era publicamente simpático a todas essas idéias. Por aí se vê que o nosso País possui longa tradição e tendência espiritualista.

Portanto, não é coincidência que nas salas de aula persistam, depois de tantos anos de modismo, as conhecidas brincadeiras do copo ou do lápis, onde se buscam respostas pelo contato com as forças “sobrenaturais”. Quando isso acontece em nossas aulas, nos aproximamos calmamente da turma para participar e orientar a brincadeira para rumos positivos e esclarecer que não há nada de sobrenatural, mas um diálogo possível e muito natural, desde que não seja fútil e desrespeitoso. Na última vez que assim fizemos, uma aluna muito rebelde e irreverente ( na época o pai dela estava preso), surpreendeu-se ao questionar a minha presença na roda. Perguntou ao Espírito se nós éramos do bem ou do mal. O lápis foi girado diversas vezes e sempre indicava o sentido o bem. Mesmo continuando irreverente e rebelde, a aluna mudou radicalmente o seu tratamento com a nossa pessoa , passando a ser mais receptiva e a retribuir as nossas demonstrações de carinho e sugestões de conduta. Numa calma noite de sono físico, dessas em que adormecemos profundamente, sem interrupção, fomos levados, em desdobramento, a um lugar escuro e assustador, onde havia estradas desertas e uma mata fechada, cercada por enormes barreiras de arame farpado. Lembramos-nos nitidamente de estar lá chamando essa aluna e algumas “amigas” desconhecidas, que corriam para a escuridão, dando muitas gargalhadas e atraídas por mentes obscuras, para retornar aos pontos de luz e de aprendizagem. Não foi sonho comum, pois era uma situação muito real e muito lógica, sem as características da manipulação mental do inconsciente. Tivemos a certeza de que era uma atividade de auxílio espiritual porque a nossa mãe carnal estava junto conosco e , no outro dia, sem saber do assunto, confirmou essa nossas “andanças” por esses planos baixos.

Mesmo que a repressão dogmática sacerdotal e o modismo promissor das igrejas evangélicas tentem ofuscar essa realidade, os brasileiros não têm como negar as suas raízes e suas tendências espiritualistas. O Brasil será, em breve a maior nação reencarnacionista do planeta. O Espírito Emmanuel, mentor do médium Chico Xavier, em suas famosas mensagens do Além, afirmou que no século XX mais de vinte milhões de almas francesas e européias, muitos dos quais militavam nos milhares de núcleos kardecistas daquele continente, hoje extintos, reencarnaram no Brasil. Isso explica porque os brasileiros, mesmo sendo socialmente adeptos de outras religiões, são simpáticos ao universo cultural espírita. Quando olhamos nas atitudes simples e alegres e nos olhos dos nossos alunos (mulatos, cafuzos, mamelucos e uma grande maioria de pardos) enxergamos nitidamente o brilho da espiritualidade dos seus antepassados. Mesmo nas igrejas protestantes já não se contém mais essa grande força cultural brasileira, adotando-se nelas as práticas de terreiros (os trajes brancos e os banhos de descarrego do candomblé e da umbanda), a doutrinação de Espíritos revoltados e as obras de caridade dos centros kardecistas. Nunca esquecemos de uma cena que ilustra bem essa marca da nossa cultura. Quando cursávamos o antigo Colegial numa escola do litoral, víamos sempre duas amigas adolescentes se dirigirem para a praia, enquanto uma, de origem africana, entrava no mar para fazer uma oferenda com flores, a outra, branca e provavelmente católica, aguardava na calçada, o retorno feliz da amiga, por ter cumprido sua obrigação religiosa. É assim que, provavelmente, no ambiente escolar, certamente encontramos essa espiritualidade plural formada por anjos, orixás, pretos-velhos, caboclos, Espíritos de luz, espíritos santos, enfim, inteligências de outros planos e dimensões, sempre atentas e vigilantes quanto aos destinos dos seus entes tutelados encarnados.

Nas relações entre o Espiritismo e o Cristianismo, bem como entre o Brasil e a França, emergiu outro importante fator histórico: a heresia. Os dois países são respectivamente o berço e a florescência da heresia cristã, através do cristianismo de Lyon, considerado o mais puro e fiel aos tempos apostólicos, recusando terminantemente a idéia política do papado e o materialismo das religiões de Estado; e mais tarde do Espiritismo, pois Allan Kardec era lyonês e, mesmo não sendo criado naquela região, definiu o grupo espírita da sua cidade natal como o mais sintonizado com esse advento histórico da 3ª Revelação. Nessa perspectiva histórica, as três grandes revelações espirituais para a humanidade foram revolucionárias e heréticas em relação às tradições dominantes: o monoteísmo mosaico, com os Dez Mandamentos; o Evangelho Crístico, com o Sermão da Montanha; e a Doutrina dos Espíritos, com a falange encarnada e desencarnada do Espírito Verdade, conforme a promessa de Jesus sobre o Consolador ou o Paracleto, no relato do apóstolo João (14 e 15 ). O Brasil também vai ser o palco mais prolífico da heresia cristã, ou seja, o cultivo da autonomia e das raízes mais remotas do cristianismo primitivo, que praticava a mediunidade (profetização) nos ágapes dominicais e aceitava naturalmente a reencarnação. Para a ortodoxia católica e protestante ,ideologicamente já corrompida e conivente com as superstições populares, a heresia é um vírus ideológico, uma inimiga da fé e da filosofia cristãs. É vista como um pecado e é atribuída ao mito de Satanás. Para os espíritas, ao contrário, a heresia, que em grego significa liberdade de pensamento e expressão, é um anticorpo que combate os inúmeros riscos de contaminação e desvios da ética do Cristo. Historicamente, a heresia sempre surgiu nos momentos em que a fé cristã sofreu abusos por parte do clero e do Estado. Mesmo que a suas manifestações parecessem incultas e exóticas, eram na verdade contextualmente proporcionais aos desvios, cujos abusos também lhes pareciam exóticos e completamente fora do normal. Aliás, as acusações de heresia, como se esta fosse algo sujo, imundo, profano, imoral, partiu sempre daqueles núcleos clericais corrompidos, antros de moralismo, ambição de riqueza e poder, onde se escondiam as mais terríveis perversões ideológicas contra o Evangelho. Este, sim, foi o espírito demoníaco, instaurado, por exemplo, pela Inquisição e seus tribunais sinistros, que sustentavam criminosamente os títulos de santidade. Este é o espírito das trevas que tenta seduzir, viciar e aterrorizar o povo com falsos milagres, mil promessas e terríveis ameaças através das teologias da prosperidade material e salvação da própria pele. Já o Evangelho autêntico abre os olhos aos cegos, ilumina os caminhos, dissipa as trevas, confunde os orgulhosos e glorifica os justos. Foi esse espírito da heresia que animou homens corajosos como Agostinho, Francisco de Assis, Tereza D’ Ávila, Jan Huss e Martinho Lutero, desafiando os abusos religiosos e mostrando o caminho correto da religiosidade.

Voltando ao que pode ou o que não pode na escola, não existe proibição ou impedimento legal para abordar o tema espiritualidade no ambiente escolar. O Estado é leigo e não existe de fato, desde a proclamação da República, uma religião oficial no Brasil. O que existe é uma recomendação ética sobre o proselitismo ofensivo e a imposição de idéias que agridam a liberdade de pensamento e de culto na sociedade. Isso quer dizer que, por mais correto e legítimo que seja, qualquer tentativa de oficializar ou legalizar essa prática representaria um verdadeiro desastre nos propósitos de alertar e esclarecer as pessoas sobre a realidade espiritual. Outro fator agravante é que, num ambiente predominantemente intelectual, a diversidade de condições de maturidade espiritual indica que nem todas as mentes estão preparadas para conhecer certas verdades e que é necessário aguardar o momento certo, a oportunidade mais adequada. E isto não pode e nem deve fazer parte de planejamentos escritos e previsíveis. O setor da mente humana que está aberto para essas informações é imprevisível (ver a Parábola do Semeador) e a didática que servirá de veículo para elas deve ser regida pelo fator intransitivo, ou seja, quem decide não é o educador e sim o educando. Então, as coisas espirituais, ao contrário das coisas intelectuais explícitas, serão ensinadas nas entrelinhas implícitas do currículo, nem na linha vertical, muito menos na horizontal. Ela vai acontecer, como a própria mediunidade entre Espírito e Matéria, no plano transversal. Embora os temas transversais sejam previstos nos PCN
[5], a nossa abordagem não deve, ao nosso ver, em momento algum ser formalizada, muito menos oficializada. Essa transversalidade é essencialmente informal, é de momento, repente criativo, insight, plantada em doses moderadas de semente e adubo, até que aconteça, de acordo com as condições de fertilidade e natureza do solo (aluno) a germinação. Somente depois dessa fase quantitativa e primitiva da agronomia metafísica e que ocorre a aprendizagem qualitativa, desenvolvida gradualmente num processo educacional iniciático, o conhecido “segredo” entre mestres e discípulos. “Quê! Sois mestres em Israel e não sabes dessas coisas!”, espantou-se Jesus com Nicodemos ao constatar que o sacerdote ignorava essa óbvia diferença entre saber e ensinar as coisas da matéria e as coisas do espírito. Nesse diálogo clássico da andragogia, Jesus revela um segredo para Nicodemos e o alerta sobre a responsabilidade da posse e da transmissão do conhecimento.





[1] Nos EUA, país de alto nível científico e tecnológico, paradoxalmente, encontra-se inúmeras comunidades fundamentalistas, freqüentadas por pessoas de boa formação intelectual e que estimulam a mistificação de temáticas científicas. Recentemente foi criado um museus do criacionismo, com um falso discurso científico, colocando no mesmo patamar de crenças as pesquisas acadêmicas e a ideologia bíblica herdada dos hebreus.
[2] Qualidade da faculdade dos médiuns, permitindo a esses o exercício intermediário entre os Espíritos e os homens.
[3] O grande escritor francês Victor Hugo e sua amiga George Sand, companheira de Chopin, foram célebres praticantes desses contatos com Espíritos. Sand era também amiga do casal de professores Amélie Boudet e Rivail Hypolité, mais tarde famoso pelo pseudônimo Allan Kardec. Rivail foi aluno e substituto de J.H. Pestalozzi no Instituto de Yverdon, na Suíça.
[4] O Dr. Mure fundou a primeira escola de medicina homeopática no Brasil, praticava curas com passes magnéticos e era adepto das idéias educativas progressistas de Emilien Jacotot.
[5] Parâmetros Curriculares Nacionais, que são indicadores de objetivos, conteúdos e práticas de ensino a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Um desses objetivos diz claramente: “Conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sócio-cultural brasileiro, bem como aspectos sócio-culturais de outros povos e nações, posicionando-se contra qualquer discriminação baseada em diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo, de etnia ou outras características individuais e sociais”. MEC, Brasília, 1998.

Professor Transversor

Sociedade do Poetas Mortos talvez seja a melhor expressão atual da parábola do semeador, cuja essência é o problema do livre arbítrio e a dicotomia ensino-educação. O protagonista é um típico aliciador espiritual ou então um “educador transversor”, mistura de agente social que é ao mesmo tempo transgressor de regras e proponente de novos paradigmas comportamentais. É o típico professor nato, de fé e vocação.


Uma proposta para ensinar a espiritualidade nas escolas não deve ter a marca aberta da propaganda artificial exotérica, explícita e exterior, nem a pretensão oficial, do mundo profano, de ser contemplada com um espaço curricular, de conteúdos intelectuais doutrinários, e sim a marca vivencial esotérica, implícita, de intenção sagrada e espiritual. Espiritualidade autêntica não combina com proselitismo. Professores de verdade são brilhantes instrutores intelectuais, mestres das soluções para as necessidades do mundo fenomenal exterior. Com o passar do tempo, pela força da vocação e maturidade profissional, eles geralmente são contaminados pelas necessidades do mundo fenomenal interior e tornam-se excelentes educadores vivenciais, ideólogos da transformação pessoal não só de idéias, mas de pontos de vista e comportamentos. Fazem, paralelamente, ou transversalmente, o trabalho intelectual e o trabalho ideológico. Os que chegam nesse ponto-chave pulam da pedagogia para a andragogia[1], do importante para o essencial, da meia verdade para a verdade integral. Tornam-se, portanto, aliciadores, atividade delicada, que não é comum, de alto risco existencial, pois vai atingir não apenas as mentes, mas os destinos. Sócrates, Jesus e muitos de seus apóstolos, Hipácia, Giordano Bruno, Gandhi, Martin Luther King foram mortos por causa disso. Eram aliciadores de alto nível em épocas e circunstâncias altamente perigosas. Nós não corremos mais os riscos que eles correram, porque eles já abriram os caminhos. Na história recente do Brasil encontramos as figuras de Chico Mendes, caboclo da floresta e aliciador ambientalista; e de Betinho, sociólogo e aliciador da ética. Chico Mendes foi morto pela ambição e violência dos latifundiários, chamando a atenção do mundo na sua luta para salvar a Amazônia da devastação. Seu verbo preferido era a preservação. Betinho foi morto pelo descaso da saúde pública, vitimado pela AIDS, adquirida numa transfusão de sangue. Portador de uma doença sanguínea hereditária, a hemofilia, Betinho era também o famoso irmão do humorista Henfil, imortalizado na canção “O Bêbado e a equilibrista”. Exilado político durante o regime militar, amargou durante longos anos a saudade do país que tanto amava e quando voltou resolveu dedicar o resto de sua vida para educar o povo brasileiro para cidadania. Aliciador de intelectuais, comunicadores, artistas, políticos e principalmente das massas, Betinho desencadeou uma mobilização sem precedentes históricos para despertar nas pessoas uma atitude simples e que havia caído na indiferença dos brasileiros: a solidariedade. Seu verbo preferido era a doação: doação de terras, doação de sangue, doação de alimentos, doação de abrigo e principalmente doação de tempo para o trabalho voluntário. As idéias e campanhas ambientalistas e humanitárias de Chico Mendes e Betinho hoje são instituições sociais internacionalmente reconhecidas e referências curriculares obrigatórias no universo escolar.

O trabalho de aliciamento hoje é mais fácil, mas continua delicado e perigoso, bastando sermos imprudentes para estragar excelentes oportunidades de conscientização. Algumas circunstâncias são mais perigosas ainda. É crescente o número de professores que trabalham em ambientes sociais carentes e estão sendo alvo de agressões morais e físicas em todos o lugares do mundo. Essa violência tende a crescer a ponto de serem assassinados, caso não adotem posturas serenas e moderadas diante da insensatez natural dos adolescentes ou entrem de peito aberto em campanhas que contrariem interesses materiais criminosos. Falamos dessa forma porque sabemos que essas condições sociais e de trabalho dificilmente sofrerão mudanças em curto prazo.

A melhor imagem que guardamos do professor aliciador é a do protagonista John Keating, em “Sociedade dos Poetas Mortos”. No célebre filme de Peter Weir a espiritualidade é camuflada pela aparente frieza da cultura anglo-saxônica, mas transpira em forma de situações conflituosas vividas pelos alunos, pais e educadores. O roteiro também deixa no ar um enorme ponto de interrogação sobre as questões da vida e do destino, especificamente sobre a morte. O professor Keating é também um excelente transversor, pois despreza a todo instante a rigidez curricular e abandona a sala de aula, como uma metáfora de que ela não existe mais, não é mais essencial, como são as igrejas e templos, e que hoje já aprendemos a construir e freqüentar dentro de nós mesmos. Pretexto para atingir a introspecção, esse abandono da sala levaria a muitos outros caminhos que esse filme maravilhoso narra do começo ao fim. Um desses caminhos é a incursão ao hall onde estão expostas as fotografias de turmas antigas. Ali, como num panteão em memória dos mortos, o silêncio se estabelece e Keating parte para o aliciamento espiritual dizendo que aqueles jovens das fotografias, cheios de energia e vitalidade, se transformaram em adubo para flores de sepulturas. Apesar do aparente discurso niilista, a intenção do professor era causar um impacto na mente dos alunos e deslocá-los para o sentido metafísico da vida. Sua proposta de “Carpe diem” significava aproveitar a essência da vida e não o supérfluo e o banal.

Mas o grande acontecimento do filme é a desilusão e o suicídio do aluno Neil, fato que coloca o professor na difícil condição de Sócrates, acusado de corruptor da juventude e responsável pelo grave incidente. O pai rígido e autoritário e a mãe impotente e submissa sufocaram o talento artístico e o livre arbítrio do filho. A existência de uma arma de fogo na casa deles consuma a tragédia. O fracasso da família e da Escola exige e elege um bode expiatório. Keating é o escolhido, ingere a cicuta, mas o seu aliciamento foi mais eficiente que o veneno da demissão, pois penetrou definitivamente nos corações dos alunos, mesmo dos covardes e traidores, que iriam carregar pelo resto de suas vidas a culpa de não terem sido leais, autênticos e corajosos. Eles não tiveram a coragem de subir nas mesas para se despedirem do Capitão e continuar olhando as coisas por outro ponto de vista. Um detalhe importante: Keating tinha sido aluno daquela escola e voltou para reencontrar-se consigo mesmo e com algumas pendências dos velhos tempos. Conosco acontece a mesma coisa: voltamos nessa ou noutra existência para fazer as pazes com o passado. Professores e alunos são cúmplices e quando os papéis não são exercidos de maneira coerente essa cumplicidade gera débitos mútuos. É assim que funciona também na relação entre pais e filhos. Pela lei de ação e reação e também pela lei da reencarnação tudo fica relativo e a inversão de papéis e situações se encarrega de colocar as coisas nos devidos lugares. Nossas recaídas mais doloridas na função docente são aquelas que são estimuladas pelas reações de rebeldia, revelando o aluno de ontem que ainda vive dentro de nós. Uma frase famosa, pronunciada constantemente nas escolas, diz o seguinte: “Os professores são uma classe desunida”, dita por nós mesmos. Ou então essa, dita constantemente pelos gestores: “Têm professores que dão mais trabalho que os alunos”. Realmente, como seres humanos comuns, temos graves problemas de ordem ética, política e psicológica. Isso também revela um aspecto importante da nossa profissão: nós não aceitamos a nossa condição; temos vergonha de ser professores; temos uma visão distorcida da nossa auto-imagem pessoal e profissional, um grave desvio na auto-estima, que os psicólogos e teóricos da personalidade chamam de “incongruência”, ou seja, navegamos em fuga numa enorme distância entre o real e o ideal, aquilo somos versus aquilo que queremos ser. A tradição diz que somos uma elite quase sacerdotal, mas a realidade informa que somos membros de classe socialmente proletarizada e sem nenhum prestígio. Para agravar o problema, por cultivarmos uma imagem de autoridade e superioridade moral e intelectual, somos constantemente vítimas de provocações e comentários jocosos daqueles que, por alguma razão desconhecida, traumas de infância, se incomodam com a nossa condição e sentem uma enorme satisfação em nos humilhar e provar que, na verdade, somos frágeis e propensos ao fracasso. Os sacerdotes assumidos, bem como os educadores experientes, já aprenderam a conviver com esses ossos do ofício; os professores imaturos, não. Estamos certamente divididos entre a veneração e o desrespeito, alimentando ao mesmo tempo um certo orgulho e um complexo de inferioridade. Aliás, esse é o traço principal dos Espíritos inferiores que flutuam na erraticidade do mundo espiritual, entre os quais estamos incluídos, independente da profissão que exerceram quando encarnados, nos mais diversos graus de condições. Uns padecem num longo sono narcísico, fingindo que não sofrem. Outros sofrem e querem fazer com que os outros também sofram as incongruências e contradições das suas atitudes perante si mesmos. Por isso reencarnamos sempre em situação conflituosa, marcando encontros dolorosos com as decepções e desencantos. Esse é o ciclo vicioso das reencarnações ensinado há milênios pelas filosofias espiritualistas orientais e cujo ponto nevrálgico é o desejo e a ilusão
[2].

Estamos diante de uma nova realidade de crises e conflitos que só poderá ser neutralizada, em parte, pela força da espiritualidade. E esta, como toda força natural, deve ser manipulada com conhecimento e aplicada com muita propriedade. A nossa vantagem é que, estando mais próximos nas relações afetivas com os alunos e seus familiares, gozamos de relativo amparo social e grande proteção espiritual, apesar dos riscos naturais e cármicos das situações em que nos envolvemos. Como se sabe, não ingressamos nessa profissão por acaso. Certa vez um jovem colega professor, formado em sociologia, e que hoje é advogado, nos disse que desejava deixar a profissão docente, mas todas as tentativas fracassavam. Angustiado, apelou então para a espiritualidade e ficou sabendo que essa sua permanência no magistério tinha tempo definido por ele mesmo antes de reencarnar. Disseram-lhe que na existência anterior tinha sido um eficiente agitador político, causando danos na vida de muitas pessoas envolvidas por seus planos radicais e fantasiosos. Muitas dessas pessoas que acreditaram em suas promessas estavam entre seus atuais alunos. Mesmo contrariado, foi realizando a sua tarefa até que um decreto oficial acabou com a disciplina (Educação , Moral e Cívica) que ele ministrava com muito talento numa conceituada rede particular. Depois tentou dar aulas de História, mas não se adaptava, não agradava. A última vez que nos encontramos estava iniciando o curso de Direito, certamente partindo para outra etapa da sua tarefa de resgate.

Depois dessa experiência com esse colega consultamos diversas vezes a espiritualidade sobre os nossos compromissos ( Quem sabe não receberíamos a resposta do tipo “Você só tem mais alguns anos...”). Em todas as consultas, com diferentes médiuns, a resposta sempre vinha assim, ríspida e lacônica: “Realizar trabalho específico, tarefa de divulgação evangélico-doutrinária, através da vivência cristã”. Demorou muito para cair a ficha e percebermos que esse detalhe em negrito não se tratava apenas de escrever e publicar discursos teóricos sobre cristianismo e espiritismo. Mas como esse compromisso cármico não é exclusividade dos professores, mas também dos profissionais de saúde, de segurança, enfim profissões que lidam com o público, pelo menos temos a possibilidade de buscar alternativas para aprender a lidar com tais situações. Uma dessas alternativas é a sintonia e ajuda de forças espirituais voltadas para o sistema educacional.



[1] Educação esotérica direcionada aos espíritos maduros, psicologicamente adultos e potencialmente aptos a receber lições probatórias da inteligência pessoal e emocional. Na educação andragógica observa-se sempre, pela relatividade de condições proporcionadas pela lei da reencarnação, que há crianças que são adultas e adultos que são crianças.
[2] Recomendamos sempre aos nossos alunos e amigos educadores, principalmente os que não gostam de religião ou religiosidade, que busquem como reflexão e vivência o Budismo, uma filosofia maravilhosa elaborada e exemplificada por um dos mais admiráveis avatares ( educadores cósmicos) encarnados na Terra. Lendo apenas a biografia do príncipe Sidartha já encontramos nesse poema de vida lições preciosas dos conflitos entre o Espírito e a matéria.

Renascer e Ressurgir na Escola


Falando um pouco mais sobre cinema, quem assistiu a segunda versão de “Além da Eternidade” (Always) lembra muito bem do casal de bombeiros-aviadores apaixonados, interpretados por Richard Dreyfuss e Holly Hunter. Ele parte para o Além durante uma ação perigosíssima, lutando para apagar um incêndio numa floresta; e ela permanece na Terra, atordoada com a passagem trágica do seu amado. Após o acidente ele vai cortar os cabelos numa graciosa ilha mental, em meio à fumaça e aos escombros da floresta queimada. Quem corta seus cabelos é um Espírito feminino, sua mentora espiritual, que lhe acolhe e também prepara-o para enfrentar naquele mundo novo algo pior do que morrer num acidente aéreo: cair em si e encarar a verdade das coisas. Ele se libertou do corpo físico, mas não conseguir se desvencilhar do compromisso sentimental gerado na mente e no coração da meiga e romântica namorada. Ela pensa nele o tempo todo; e ele não consegue deixar de pensar nela. Ele têm uma pendência consciencial, por não ter cumprido corretamente sua missão e deixou um grave compromisso sentimental. Volta ao cenário do trabalho terrestre para resolver essa pendência, mas a tarefa vai se tornando cada vez mais difícil porque fica indeciso se quer prosseguir no Além mais longe ou se fica Além mais perto. A namorada não dá sinais de progresso, pensa em desistir da vida e passa namorar um novo aviador inexperiente. O nosso aviador-bombeiro agora tem duas missões: liberar sentimentalmente a ex-namorada e treinar o novo aviador, para que o mesmo não cometa os mesmos erros que ele cometeu. Filme lindo, com trilha sonora belíssima.

Mas, e se o mocinho e a mocinha fossem professores? Como seria o roteiro do filme? Será que os educadores também fracassam em suas missões e, quando desencarnados, acabam voltando para suas escolas para resolver pendências?

Claro que sim! Educadores, apesar de serem admiradores e divulgadores da perfeição e da verdade, ainda são imperfeitos e cometem toda sorte de erros e equívocos no exercício técnico e moral da sua profissão. Quase sempre reencontram no cenário da escola os antigos desafetos e vítimas das suas mazelas do passado, o que agrava ainda mais o risco das recaídas. Isso significa que os Espíritos que atuam nas escolas também são ex-educadores, cada qual trabalhando nas suas funções, capacidades e necessidades de reajuste das falhas cometidas. Mais ainda: muitos deles, dependendo da gravidade do erro, logo após o desencarne, voltam às escolas onde falharam com a tarefa de estagiar, observando “in loco” as situações onde falharam, auxiliando companheiros encarnados que estão correndo o mesmo risco. Depois desse estágio buscam a reencarnação para passar pelas provas de fogo da vida carnal, sem lembranças conscientes, sem poder prever com precisão o momento em que estarão sendo testados. Portanto, os Espíritos que atuam nas escolas, mesmo os mais experientes, são essencialmente comprometidos com a educação, muitos por débito, alguns por dever de consciência e poucos para realizar grandes missões. Quando alguém do nosso meio e do nosso plano evolutivo bate no peito dizendo que são pessoas “comprometidas” com a educação certamente estão reconhecendo em público que um dia cometeram falhas graves nesse setor.

É fato que as escolas não estão desamparadas e sem cobertura espiritual. Muitos Espíritos desencarnados trabalham conosco e zelam por nós. Os que atrapalham o nosso trabalho o fazem com aberturas que nós, os encarnados, proporcionamos a eles. Sem essas oportunidades eles não ultrapassam os limites de sua atuação. Os episódios de violência ocorridos em escolas do mundo inteiro, incluindo as tragédias coletivas, são fatos ligados a processos de resgates cármicos
[1], nos quais nem mesmo a Espiritualidade Superior poder interferir, a não ser para alertar aqueles que não deveriam ser afetados ou para amparar aqueles que foram direta ou indiretamente atingidos pelos acontecimentos. Nesse aspecto, as escolas são como todos os demais ambientes, sujeitos a ventos e tempestades das leis naturais do mundo físico. Estamos falando aqui de ações mais específicas dos Espíritos. Na sua ampla dimensão social não poderia faltar a contra partida espiritual, com vasta rede de projetos e realizações ligados entre si pelos processos de ajustes e reajustes reencarnatórios. Isso é muito comum em praticamente todas as atividades humanas, sobretudo as que são estratégicas e que envolvem riscos para a existência humana. Certa vez ouvimos num centro espírita de uma cidade do interior paulista o relato de um engenheiro contratado para supervisionar uma reforma no setor industrial de um grande frigorífico, instalado às margens de um grande rio. Afastado das atividades espirituais mediúnicas, ele veio ao centro em busca de socorro, pois estava ainda “atordoado” com um episódio de clarividência. No momento de uma rotineira matança do gado e processamento das carnes ele observou uma cena muito curiosa, porém chocante para os leigos: da margem do rio, atraídos pelo cheiro de sangue, surgiram nos amplos salões do matadouro centenas de Espíritos em estágio mental primitivo, de baixo grau de consciência, em busca de um alimento fluido contido no sangue espalhado no chão, nos pedaços de carne selecionados e também nas vísceras. Segundo ele, depois de alguns minutos, essas entidades de aparência grotesca se afastaram, saciados, dando lugar para entidades de grande agilidade, que pareciam vultos de luz, cujos movimentos de manipulação indicavam um trabalho de assepsia energética sobre as carnes e os equipamentos utilizados para o corte. Esse relato, que já havia sido feito por outras pessoas, confirma a atuação dos Espíritos em diversos ambientes profissionais. Nesse caso entendemos que eles estariam dissipando a concentração de energias negativas sobre as carnes, que seriam consumidas como alimentos pela população encarnada, contaminada pela ação de vampirismo dos Espíritos inferiores e também pela reação química causada pelo medo e a dor dos animais no momento do abate. A ação dos Espíritos inferiores ali não pode ser evitada porque eles vibram numa sintonia mais grosseira, de fácil acesso em ambientes afins.

Nunca é demais lembrar que Espíritos em estágio mental primitivo, pouco moralizados e ainda muito ligados aos instintos animais, ficam pouco tempo no mundo etéreo, em situação quase inconsciente e praticamente reencarnam sem guardar lembranças das experiências na erraticidade. O vampirismo de Espíritos desencarnados sobre os encarnados é comum nos excessos alimentares, no consumo de bebidas alcoólicas, no fumo, no uso de drogas alucinógenas e também nos excessos sexuais. Enfim, nos vícios humanos. Já a obsessão é um vampirismo moral, atraído e facilitado pelas nossas atitudes e sentimentos ruins de preguiça, malícia, inveja, vingança, ódio, etc. Nesses casos a assepsia só funciona quando ocorre a vigilância e a conseqüente mudança de hábitos e sentimentos. Esse é um tipo de educação que ainda não é possível implantar diretamente nas escolas (de forma legal, vertical ou horizontal), mas que podem ser divulgadas e legitimadas através do currículo transversal, pelos exemplos. Participamos de um projeto de preservação do patrimônio escolar, cuja tônica principal era a limpeza das salas e do pátio da escola. Manter a escola limpa, preservar o patrimônio, influenciar o bairro, a cidade e, quem sabe, o planeta. Houve apoio e também reação por parte de alunos e professores. Parecíamos rebeldes e contra as medidas, como a maioria dos alunos, mas na verdade estávamos insatisfeitos e reagindo contra as nossas próprias estratégias errôneas de ação. Estávamos mandando os alunos limpar, ensinando e comandando os detalhes, dando a impressão que eles eram faxineiros e nós os supervisores da faxina. Não estava dando certo nas salas em que estávamos atuando, pois agíamos na base do “Faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. A situação passou a mudar quando, ao invés de comandar, começamos a participar da ação, pegando, junto com os alunos a sujeira do chão. Antes nós falávamos: “Fulano, pegue aquele papel de bala e jogue no lixo!”. A reação era a seguinte. “Não fui eu quem jogou, portanto não vou pegar”. Depois disso passamos a dizer: “Fulano, por favor, traga para mim esse papel, para que eu jogue no lixo”, enquanto, ao mesmo tempo, catávamos no chão algum tipo de sujeira. A reação foi esta: “ Toma aí , professor”; ou então: “Deixa que eu ponho lá, professor”. Ficou bastante claro, para todos, que a qualidade das ações educativas não está no padrão funcional das mesmas, nas regras e discursos unilaterais de “falar a mesma língua”, mas na qualidade atitudinal dessas ações, na semelhança dos exemplos.


Na mesma escola tivemos uma experiência inesquecível quando fomos desafiados por uma situação de constrangimento. Ao entrarmos na sala de vídeo, recebemos de grande parte dos alunos uma forte pressão para que fosse retirado da sala um aluno que estava com aquele conhecido “cheiro forte” (CC). Tentamos disfarçar e dar continuidade ao filme, mas o cheiro estava realmente incômodo e parecia aumentar quando apontavam o garoto. Nesse momento passa pelo corredor o diretor da escola e desfecha aquele olhar de censura que significa ao mesmo insatisfação e cobrança. Nossa reação foi automática: “Ninguém vai sair e todos vamos ver o filme até o fim, com cheiro ou sem em cheiro”! Olhos fixos na TV, esperamos a reação. A classe se acalmou por alguns instantes. Mas o problema persistiu. Queriam excluir o garoto. De repente, tomamos uma decisão: levantamos do nosso lugar e fomos em direção ao tal garoto. Sentamos ao lado dele e bem próximo do aluno mais agitador, que, tampando o nariz em atitude jocosa, queria ver o circo pegar fogo. Fizemos um rápido discurso do tipo “ Vamos deixar de frescura” e perguntamos ao agitador se ele gostaria de sair da sala, pois parecia ser o mais incomodado. Novamente, olhos fixos na TV e aguardamos nova reação, agora de alguns alunos já solidários conosco e com o garoto, cobrando silêncio e atenção ao filme. Por incrível que pareça, o cheiro forte foi diminuindo, seja por adaptação nossa, seja pela mudança de enfoque e pressão moral sobre o agitador, ou então pela redução do sentimento de ameaça e constrangimento do garoto. Enfim, com cheiro ou sem cheiro, terminamos de ver o filme e, depois, tivemos a oportunidade de conversar com os dois alunos. O agitador reconheceu que exagerou e não imaginou que o colega fosse ficar tão humilhado a ponto de chorar. Ao garoto do CC, que também não era “flor que se cheire”, explicamos que o problema era causado por uma bactéria adquirida, por exemplo, pela mistura de suor na troca de camisas utilizadas em jogos e que , até por vergonha inconsciente, o portador não percebe o cheiro. Em situações como essas o Educador certamente estava sendo observado por todos e não somente pelos mais críticos. Mesmo tendo cometido possivelmente algum erro de conduta , fizemos o melhor que conseguimos naquele momento e posteriormente ouvimos comentários positivos e solidários de outros professores tentando imaginar como se comportariam numa situação dessas.


E por falar em ação dos Espíritos, em reencarnação e mudança de atitudes nas escolas, é notória e intensa a ação dos Espíritos no campo da sexualidade, tanto no que diz respeito a satisfação de desejos carnais, por parte daqueles em situação de dependência, como daqueles outros que buscam influenciar os encarnados para gerar a situação-oportunidade de reencarnação, estimulando nos adolescentes a relação sexual e a gravidez precoce. As oportunidades de retorno ao campo físico são atualmente muito escassas, por uma simples questão de oferta e procura. Pode parecer engraçado e até absurdo aos leitores mais críticos e racionalistas, mas no mundo espiritual planetário está acontecendo, há algumas décadas , uma espécie de “globalização e competição cármica”. A enorme quantidade de Espíritos ainda mentalmente atrasados em nosso planeta faz com que as experiências na carne sejam mais necessárias do que a vida nos planos etéreos. Segundo alguns autores, ocorre também fator agravante, que é a própria condição psíquica do planeta, de provas e expiações, tornando-se alvo de Espíritos de outros mundos em busca desse tipo de oportunidade. Nesse campo não sabemos em detalhes como funciona o regulamento e o controle das reencarnações por parte dos Espíritos Superiores, mas sabemos que o fator predominante desse processo psíquico-social é a afinidade mental. É o tal do “parentesco” espiritual. A gravidez humana é sempre um evento especial, presidido pela espiritualidade, ou seja, pelos Espíritos bastante interessados nessa situação, desde o estabelecimento de compromissos pré-encarnatórios até a aproximação dos pólos sexuais que vai gerar um novo corpo. É um evento especial, mas é também uma situação psíquica e biológica muito perturbadora, na qual as intenções e desejos se misturam com a manipulação de energias genésicas poderosas e de difícil controle pelas mentes imaturas e ainda submissas à lei da gravidade planetária. Portanto , é possível e real que os Espíritos, sejam superiores ou inferiores, interfiram nas relações afetivas e sexuais daqueles que lhe são afins ou que precisam reajustar-se perante a Lei Maior. E as escolas e seus arredores são cenários importantes dessas tramas do destino. Tanto é que, nas situações opostas, muitos Espíritos inferiores, encarnados e desencarnados, trabalham para impedir que ocorra a reencarnação de inimigos ou futuros credores, estimulando mentalmente ou realizando a prática do aborto, mesmo que o crime lhes reservem severas heranças como a impotência e a esterilidade. Os desejos e emoções equilibradas ou perturbadas durante a gravidez quase sempre são manifestações da nova formação psíquica do Espírito reencarnante, na qual expressa seus antigos gostos e tendências. Mães que abandonam os filhos logo após o parto não fazem somente por causa da chamada depressão pós-parto, que é uma conseqüência, mas também porque já estão tendo lembranças inconscientes do passado e prevendo os problemas que essas crianças lhes causarão futuramente, já que são Espíritos que foram prejudicados por essas mães em existências anteriores. As agressões e assassinatos de bebês, por conta da explosão emocional de pais jovens, atormentados pelo desconforto da paternidade e maternidade precoce, têm se destacado nas estatísticas da violência doméstica e que acaba chegando nas escolas. Espiritualmente falando, sabemos que não existe acaso, planos estritamente biológicos, muito menos barriga de aluguel. Tudo acontece por força das combinações de leis naturais e morais. Muitos videntes confirmam, ao ver cenas de namoro entre adolescentes, sobretudo nos casais de idade precoce, um forte assédio mental-sexual para que se consuma o ato desprotegido de medidas preventivas e preservativas, e a conseqüente gravidez. Para os Espíritos sedentos de experiências na carne, não importa, naquele momento, as conseqüências nem as futuras condições da sua futura existência carnal. Eles querem renascer a qualquer custo. Bom seria se quisessem, como exige a Lei da Evolução, renascer e ressurgir [2]e não somente retornar para o corpo para aproveitar os prazeres da carne e dos instintos. Mas isso a Vida ensina, pelo amor ou pela dor. No mundo social dos adolescentes estudantes esse comportamento já virou rotina e alvo da admiração e imitação por parte das meninas. Já ouvimos pessoalmente um diálogo entre duas alunas de 13 anos que confirma essa realidade. Uma delas argumentava para a colega que iria ficar grávida, pois, pelo fato de ser filha adotiva, esperava premiar a mãe com um neto. Também esperava do pai do futuro pai da criança apenas a “pensão” mensal, pois iriam morar, ela e o filho, num espaço próprio, na casa dos pais. Enquanto isso uma terceira colega, um pouco distante, observava e manifestava grave discordância, olhando para nós com expressões de desaprovação, a que ouvia a colega estava com os olhos brilhando, sonhando e imaginando-se na mesma situação. Pensamentos e sonhos como esse têm uma repercussão muito forte e diferente no mundo espiritual, onde se diz: “Diga-me o que sentes e pensas e eu te direi com quem andas”.


As escolas e os educadores têm em mãos conhecimentos importantes sobre sexualidade na adolescência e na escola, amparados por lei, porém, diante de condições inibidoras, como o tabu, os preconceitos e os riscos de reações imprevisíveis por parte dos educandos e seus familiares, quase sempre se retraem para evitar maiores problemas. O saudável hábito de aprender abertamente a sexualidade responsável nas salas de aula continua sendo massacrado pelo hábito errôneo de aprender sexo prático e fácil nos banheiros coletivos e nos trajetos obscuros entre o lar e a escola. Muitos professores sofrem agressões físicas de pais e namorados violentos, em perigosas cenas de ciúme por conta de envolvimentos emocionais mal interpretados com jovens carentes e sem nenhuma formação moral e científica sobre sexualidade. Outra constatação é que professores e alunos realmente correm o risco de sucumbir a situações tentadoras, não suportando as pressões sexuais e acabam se envolvendo em situações perigosas e injustificáveis. Mas, como ensinam os Espíritos, sexo é compromisso com o destino, não havendo tolerância das leis universais com a banalização de forças criadoras e sagradas. Para os Espíritos Superiores, sexo é recurso genésico procriador e veículo de harmonização afetiva, vetor evolutivo, educador dos sentidos e neutralizador dos instintos destruidores da brutalidade e da opressão, seja qual for o gênero de sua manifestação. Seu uso correto, pela honestidade mútua, promove e ilumina os Espíritos encarnados. O abuso de sua força e traição das intenções gera graves danos nas mentes e nos corpos. Toda relação sexual, até mesmo as mais fúteis, deixa marcas profundas no psiquismo dos pólos envolvidos, mesmo que não haja sentimentos afetivos. A troca de energias sexuais parte não somente de impulsos instintivos, mas também de afinidades que estabelece ligações entre os perispíritos e também entre aqueles que podem ser atraídos numa possível concepção e reencarnação. Cumplicidade de sensações resultam primeiro na cumplicidade de emoções e depois dos sentimentos. Eis aí o compromisso. Filhos não são apenas fatos e fetos biológicos, mas individualidades, histórias de vida, que possuem ligações mentais antigas com seus futuros pais. Nós já passamos por uma situação em que um colega nos pediu ajuda, mais um desabafo, porque havia engravidado uma aluna e depois decidido convencer a menina a fazer o aborto. Não o condenamos e somente lembramos a ele que a sua própria consciência e o seu conhecimento revelavam a delicadeza da situação e as conseqüências do seu ato. Conhecemos também um casal que lutava há anos para criar um filho em condição de autismo. É uma preciosa de lição de vida para quem acha que tem dificuldades insolúveis. Depois de lermos um texto sobre esse problema mental sob a ótica espírita, sugerimos a ele que, conversasse com o filho durante o sono físico, para tentar uma aproximação, já que o mesmo não demonstrava sinais de progresso na sua longa auto-reclusão. Numa das nossas conversas, por sinal sempre amistosas e sinceras, pois tinha formação protestante, o pai nos relatou, em lágrimas, que esse filho foi produto de uma gravidez inesperada e que, ele e a mãe da criança, na época ainda muito jovens, tentaram abortar. É claro que a auto-reclusão do filho significava que ele ainda não havia decidido consumar o seu nascimento físico, já que os pais demonstraram na época uma forte rejeição pelo acontecimento. O filho, na condição de autismo, estava aguardando dos pais a explicação e um esclarecimento do que aconteceu, um pedido de desculpas e um “sim” definitivo para ingressar na família e buscar com eles um ressurgimento espiritual. Por sua vez, a causa do autismo não foi somente a agressão e rejeição por parte dos pais, mas a gota d’água para o início de uma prova , pois tais Espíritos já são severos credores de si mesmos, corroídos pelo sentimento de culpa por terem cometidos falhas graves, receando novas quedas e pavor de voltar à carne. Aliás, nesse momento de luta entre o Espírito e matéria, ocorre uma reação contraditória no ser humano: o mesmo medo que temos de morrer acontece quando estamos prestes a reencarnar; se estamos aqui, não queremos ir para lá; e se estamos lá, não queremos vir para cá.

[1] Realização natural da lei de causa e efeito, que na cultura hindu se diz Karma.
[2] Na concepção cristã histórica, resgatada pelo Espiritismo, renascer significa biologicamente reencarnar e ressurgir psicologicamente romper os limites da mente.

Professor, Médium e Mentor


Jean Henry Pestalozzi, educação com afeto.


Toda a Comunidade Escolar é um campo complexo de trabalho existencial e consciencial na evolução de espíritos encarnados e desencarnados. Como extensão social mais próxima da família, exatamente por causa dessas situações cada vez mais agravantes, certamente recebe tratamento específico das inteligências desencarnadas superiores e comprometidas com esse setor estratégico da evolução planetária. Essa certeza sempre nos vem à mente quando lembramos das muitas escolas pelas quais passamos no decorrer de quase duas décadas. Quem trabalha ou trabalhou em escola pode compreender e confirmar essa nossa constatação: quando as condições assim permitem, as turmas em suas respectivas séries não são agrupadas ao acaso burocrático da matrícula e sim pela força maior das afinidades mentais e espirituais. Os funcionários encarnados que fazem esse trabalho certamente são inspirados por Espíritos que conhecem com mais detalhes e profundidade o perfil e a personalidade dos alunos e estes são aproximados por atração ou sintonia espiritual. Os mecanismos dessa aproximação de pessoas com traços psicológicos afins obedecem à leis naturais , porém tecnicamente manipuladas por inteligências superiores, utilizando, inclusive aparelhos de leitura perispiritual a partir das cores da aura e dos centros de força e finalmente das condições espirituais, ou seja, as bases cármicas e intelecto-emocionais das pessoas. Esse fator seletivo natural, com o passar do tempo, revela uma personalidade coletiva nas classes e os professores logo percebem assimilam essa realidade maior quando fazem avaliação geral das mesmas durante os conselhos de classe-série. Dessa forma é que acontece o princípio de atração e cura pelas semelhanças. A idéia de atuação do professor-coordenador, por exemplo, provavelmente foi inspirada pelos mentores das escolas, como extensão desse trabalho realizado no plano etéreo. Esse professor, quando também as condições permitem, é um elemento que possui afinidade de características com seus futuros tutelados e passa a ter uma forte relação afetiva com eles, mesmo que o grupo seja problemático e que ele manifeste rejeição por essa realidade, o que é absolutamente previsível e normal. Na maioria das vezes, em situações graves, mesmo inconformado com algumas atitudes negativas da classe, o professor-coordenador age como advogado e intercessor dos mesmos, procurando enxergar qualidades que diminuam a gravidade das faltas que os alunos cometem. É uma situação muito curiosa na qual se desenvolve e estabelece uma relação de amor nascida de momentos de conflito e tensão, como nos resgates da vida familiar. Esse professor-coordenador, quando engajado e integrado nesse papel, mesmo não tendo consciência do aspecto espiritual desse processo, torna-se um forte elo de ligação entre a escola e os Espíritos-mentores dos alunos.

Na enorme cadeia de ligações entre o Estado e sociedade, a escola e a família, o aluno e o conhecimento, o elo principal sempre foi o professor. Costuma-se dizer que escolas nada mais são do que a cumplicidade entre mestres e discípulos e que o restante é perfeitamente dispensável, porque não é essencial, embora pelas circunstâncias seja necessário. Historicamente todo o aparato organizacional desenvolvido nas escolas foi criado com a intenção quebrar ou reduzir esse poder natural dos professores e roubar o domínio político que eles exercem sobre os pais e os alunos. Essa relação de cumplicidade desperta um sentimento de admiração e também de injustificável ciúme em muitos gestores, funcionários e também nos pais, que se vêm impotentes diante da fidelidade de alunos e filhos para com os professores. Por isso a maioria dos conflitos entre professores e alunos, pais e familiares são política e maliciosamente explorados por conta dessa frustração. Esse poder do professor não vem do seu cargo, muito menos do seu conhecimento. É um vínculo natural, paternal e maternal, desenvolvido desde os primeiros anos da infância, como se fosse uma amamentação espiritual que substitui o aleitamento e a proteção dos pais. Se a escola é a extensão natural do lar, os professores são os substitutos dos pais. Somente pais, alunos e professores rebeldes e emocionalmente desequilibrados, não centrados nas suas vocações, não compreendem e podem perturbar essa relação natural entre mestres e discípulos. Quando isso não acontece as coisas na escola sempre caminham muito bem. Isso faz parte da relação social entre os membros encarnados da comunidade escolar e também entre esses e os desencarnados. O professor é o médium natural entre a Espiritualidade e os alunos, fato que também passa a ser comum entre gestores e funcionários, quando não interferem negativamente nessa relação. Inúmeras vezes recebemos dos Espíritos educadores, em sala de aula ou não, diversas formas de orientações, seja sobre a nossa conduta em determinadas situações, seja na elaboração de projetos, na preparação e exposição de aulas ou ainda na orientação no contato com os pais. Já tivemos a oportunidade constatar essa realidade quando ministramos aulas sobre assuntos que não tínhamos senão conhecimentos muito superficiais e, durante durante a exposição fomos descobrindo, por inspiração, pontos-de-vista que jamais teríamos imaginado ou então análises cuja profundidade teórica não era do nosso domínio intelectual. Quando isso acontece, a classe fica em estado de euforia, pois, de certa forma , percebe a presença de inteligências espirituais no ambiente e acabam entrando em sintonia mental com os mesmos.

Achamos que esse trabalho de intervenção espiritual nas escolas têm se acentuado cada vez mais, desde que tornou-se visível o agravamento na queda do padrão vibratório e moral das coletividades que estão reencarnando nas últimas décadas. O mundo não é mais o mesmo, moralmente falando. Apesar do avanço científico e tecnológico dar sinais de alta progressão social, os sinais de degeneração moral como a criminalidade e a violência expandiram-se assustadoramente a partir dos anos 1950. Não é coincidência ou superstição o fato de que as escolas tenham sido alvos constantes dos ataques de forças negativas, que querem a qualquer preço destruir suas estruturas de ação social, seja através da massificação do ensino, seja nas tentativas de degradação da função docente, seja na disseminação de ideologias que enfraqueçam suas bases morais educativas. A corrupção, a violência e as drogas não são apenas sintomas sociais da qual os lares e as escolas são o reflexo mais visível. É também o efeito de ações etéreas negativas planejadas por mentes perversas e que lucram, nos dois planos, com o estabelecimento do caos e do terror. Os presídios, que também são escolas especiais, criadas para reajustar e reintegrar criminosos atuais e ex-criminosos reencarnados que ali atuam como funcionários, estão em constante risco de inversão de papéis e funções. Todo o sistema judiciário tem, como no sistema escolar, pessoas, em todos os níveis, passando por provas e expiações. Organizações criminosas que atualmente ameaçam o Estado e a sociedade não são apenas produtos das péssimas condições sociais. São reproduções de modelos que existem em núcleos do umbral
[1], cuja grande parte dos membros hoje estão reencarnados em processos provacionais e expiatórios, porém ainda mentalmente ligados aos seus parceiros do mundo etéreo. Sua organização e politização não foi apenas produto do contato entre presos políticos e presos comuns durante as ditaduras, mas é um fenômeno mundial, na qual esses Espíritos de má índole tentam estender seus tentáculos de poder pelo terror para a sociedade em geral.

Esta é, em parte, a nova realidade que estamos vivendo e que tem na educação e na figura dos educadores um desafio especial: não deixar a peteca cair e mantermo-nos a postos contra a derrocada do sistema escolar. Para tanto é preciso conhecer o problema, saber os riscos, identificar os limites e explorar todas as possibilidades de iluminação. Depressão, tristeza, desânimo, síndrome de pânico, irritação, ansiedade, descontrole emocional, rebeldia mal direcionada, desejo de fuga das salas de aula, também não são apenas sintomas do stress , típico do mundo pós-moderno e da competição capitalista global. É também, pelos conhecidos processos obsessivos, a sintonia e a submissão às forças espirituais negativas que assaltam as escolas e as famílias pelas vias da afinidade mental, para facilitar o trabalho corruptor e degenerador dos costumes harmônicos necessários ao êxito escolar e social. E tais situações de desequilíbrio estão cada vez mais freqüentes em todos os membros das comunidades escolares e cada vez mais precoces nos alunos. Para agravar a situação, as posturas disciplinares, os métodos didáticos-pedagógicos e programas curriculares não são mais compatíveis com a nova cultura social e com a nova legislação (códigos e estatutos ), muito menos com o perfil e expectativas da clientela que atualmente freqüenta as escolas. Não podemos esquecer que a nossa formação intelecto-moral precária e a baixa remuneração também são realidades que devem ser combatidas com inteligência e coragem. Nossa valorização não começa nos gabinetes do poder, mas na nossa própria consciência, refletindo eticamente nas posturas profissionais. Quanto mais conscientes, mais fortes, mais respeitados. Quanto mais respeitados, menos conformistas e menos derrotados. Para os educadores de vocação este é um momento crucial, porém definitivo e divisor de águas. Uma das causas da nossa desvalorização profissional é exatamente a presença em nosso meio de pessoas que negam possuir afinidade ( e nem se esforçam para ter) com o Ensino e com a Educação. Acham que não possuem compromisso, pois acreditam que “caíram de para-queda” e só estão “de passagem” nas escolas. Não se aceitam como são, muito menos como estão. Agem de forma obscura, dúbia, corrupta, traindo a confiança dos alunos e dos pais; delatam colegas, buscando falsos prestígios e se afundam cada vez mais na desilusão consigo mesmos. É um caminho atraente para todos nós, ainda ávidos de ilusões e fugas. Ledo e doloroso engano, pois já estamos, sem saber, gerando débitos cármicos, quando deveríamos produzir créditos. Muitos de nós agimos de forma irresponsável, cínica e egoísta, como se a Escola e Estado fossem entidades estranhas e distantes da nossa individualidade. Mesmo as instituições particulares são meros empréstimos das forças superiores e seus “proprietários” terão que prestar constas do patrimônio cultural do qual se tornaram depositários. Muitos de nós afirmamos: “O Estado não faz nada por nós, somos apenas um número. Por isso, faço isso ou aquilo, sem a menor crise de consciência!”. Grave equívoco, pois o Estado somos nós e, mesmo os governos que os administram, são produtos da nossa vontade ou omissão política. Fazer isso ou aquilo com a intenção de lesar o Estado é crime coletivo e gera débito cármico, prontamente acusado pela nossa consciência, piorando após o desencarne, quando entramos em contato com a parte mais ampla da nossa mente, além dos cinco sentidos físicos. Como em todas as situações de erros graves, segue-se então um forte sentimento de culpa e não adaptação aos núcleos coletivos mais organizados e evoluídos da erraticidade. Isso quando não estacionamos em núcleos inferiores, cuja organização é voltada para o individualismo e a opressão. Para reaver a paz interna, pedimos para reencarnar. Daí a volta de muitos Espíritos no próprio cenário dos abusos, seja como colaboradores na erraticidade espiritual, seja como devedores no retorno carnal. A semeadura é livre, mas colheita é obrigatória. Quando falamos em Estado e débito cármico, estamos lembrando que essa é uma relação idêntica entre a nossa consciência e o Universo. Qualquer ação humana e racionalmente consciente, porém abusiva e fora dos padrões naturais, gera desequilíbrio e a uma reação proporcional, dos simples aos grandes gestos. Isso não é invenção mística e dogmática das religiões. Isso faz parte da história e da evolução dos seres. A Ciência, em teses reconhecidas, já demonstra que o Universo é inteligente, interligado pelos fenômenos, pelas leis naturais, pelos seres, e que nada acontece ao acaso ou de forma isolada. Isso significa que aquela única uva ou castanha, que não podemos e não vamos comprar, mas que sempre roubamos no supermercado, vai causar um desequilíbrio no Universo; não pelo gesto em si, mas pela intenção. Imaginem então o que acontece com os grandes danos e prejuízos coletivos.


[1] Zonas ou esferas etéricas da Erraticidade, habitadas por espíritos ou coletividades espiritualmente ainda grosseiras, de hábitos e valores muito influenciados pelo mal. Na mitologia das religiões dogmáticas os umbrais são apontados como infernos ou regiões purgatoriais. Essas esferas influenciam negativamente pela afinidade e sintonia, sobretudo durante o sono físico, as coletividades encarnadas.

Nosso Planeta, Nossa Escola



As escolas estão sofrendo as perturbações pelas quais está passando todo o planeta Terra. Por ser a síntese fiel e espelho da sociedade, elas funcionam como termômetro e vitrine de tudo o que acontece no mundo social. Nosso planeta é um organismo vivo, possui uma “Anima Mundi” e está passando por uma crise de mutação cíclica, tanto no aspecto ambiental exógeno, como na sua atmosfera psíquica, onde ocorre uma intensa luta entre forças renovadoras e forças reacionárias. Isso possui um reflexo negativo no plano social, em todas as instituições. As escolas são mais sensíveis a tais acontecimentos, por todas as características espirituais já apontadas, mas principalmente porque ela é um espaço natural de esperanças de vida e utopias de um mundo melhor. Se a vida social pode melhorar, essa possibilidade começa na escola. Essa crise de mutação planetária é muito complexa e aparentemente caótica, pois se misturam nos fatos geofísicos os elementos de uma confusão de valores, de avanços e retrocessos, vitórias e derrotas, equilíbrio e desequilíbrio, construção e destruição. Não sabemos quanto tempo tudo isso vai durar e quais os resultados dessas graves mudanças, pois nesse contexto tudo se torna instável e vulnerável. Estamos em tempo de revolução e não de reformas.

Uma idéia que pode nos ajudar a entender melhor e aceitar o que está acontecendo é aquela informação doutrinária que ensina que a Terra é a nossa Escola Evolutiva, do gênero humano e, portanto, a nossa escola pequena, onde os alunos adquirem conhecimento e nós ganhamos o pão de cada dia, não deve perder de vista que fazemos parte dessa dimensão planetária. Os filósofos mais sintonizados com essa idéia dizem que estamos destinados a sermos cidadãos do mundo e que não há mais sentido para a cidadania local e nacional. O Espiritismo ensina que, na pluralidade e nas categorias de mundos, o nosso planeta está mudando sua marca cósmica de expiações e provas para a marca de mundo em regeneração. As transmigrações de almas obedece essa dinâmica das marcas planetárias evolutivas. Nesse processo reencarnam-se milhões de seres perturbados, rebeldes, agressivos, que na suas trajetórias cometem mais erros do que acertos e sofrem as conseqüências negativas dessas escolhas. São perturbados e naturalmente perturbam o ambiente em que convivem. Não se adaptam às regras sociais porque possuem um padrão sub-moral para avaliar as situações e as coisas. Aparentemente são impermeáveis aos ensinamentos superiores, aos quais reagem com indiferença, mas cuja percepção inconsciente registra em pequenas doses. Mas não está ocorrendo somente a encarnação de Espíritos endividados e espiritualmente atrasados. Diversas mensagens mediúnicas, antigas e mais recentes, bem como a observação das tendências sociais feitas por respeitados cientistas, informam que a Terra seria alvo da encarnação de Espíritos provenientes de mundos mais evoluídos, moral e intelectualmente, como parte importante do processo de renovação planetária
[1]. É uma prática comum no intercâmbio e evolução dos mundos. Tal processo já foi iniciado há milênios, quando coletividades de outros sistemas planetários encarnaram, em várias épocas, deixando marcas históricas inconfundíveis da sua superioridade. Da mesma forma, educadores de alta hierarquia espiritual encarnaram na Terra para iniciar a ruptura dessa marca de dores e sofrimentos impostos pela Lei de Causa e Efeito. Suas lições, em todas as épocas, sempre estiveram concentradas em três pontos básicos: a imortalidade, a transformação moral e a utopia da perfeição [2](Paraíso, Reino, Nirvana, Céu, etc), reflexo do esforço que os seres humanos devem fazer para aprender a serem felizes em situação de infelicidade. Essa mutação planetária ainda deverá levar muito tempo, talvez séculos, pois os processos de reajuste ocorrem em todos os aspectos e sentidos. Nada deve ficar pendente, daí a violência e a impotência humana diante de acontecimentos inevitáveis e inadiáveis.

Nas escolas encontramos, numa visão micro-social, exemplos de todos esses acontecimentos planetários. E os micro-educadores têm a mesma sensação de receio e responsabilidade das ações macro-sociais dos dirigentes internacionais.

A função social da escola é muito ampla: trabalhamos incessantemente para que haja uma adaptação e conseqüente progressão dos alunos diante das rápidas e atuais mudanças históricas. Fazemos o papel de suporte científico e ao mesmo tempo moral, pois as transformações geram distúrbios emocionais e sofrimentos físicos nos alunos, professores e funcionários. A maioria dos pais não possui condições psicológicas, nem conhecimento para lidar com esses problemas e passam a depender da ajuda da escola, principalmente dos professores. Quando a rede física e a população escolar eram reduzidas esse papel de substituir a família funcionava relativamente bem, apesar de alguns abusos de autoridade. Com a explosão demográfica, ocorrida no Brasil a partir da década de 1970, aumentou absurdamente o número de alunos nas salas de aula e ocorreu também uma mudança de mentalidade e de costumes. Com a democratização da escola, os pobres não puderam ser mais expulsos ou dispensados para o trabalho infantil. Os alunos indisciplinados e limitados não puderam ser mais punidos e reprovados. Essa quebra do antigo modelo autoritário estabeleceu um ambiente libertário nas escolas, porém gerou um relaxamento das relações de autoridade e dos papéis, sem a contrapartida de uma conscientização proporcional. Para compensar esse afrouxamento moral, adotou-se uma rigidez artificial, através da legislação educacional, acentuando-se a informação intelectual em prejuízo da formação moral. Essa situação seria acelerada com a explosão tecnológica dos anos 1990 e que atualmente se delineia na desconstrução da sala de aula e dos métodos textuais planos, através da revolução digital do hipertexto. Toda essa situação tornou a escola cada vez mais vulnerável aos distúrbios planetários, exigindo dos educadores mais dedicação e melhor desempenho em suas funções, como já vinha acontecendo em alguns setores profissionais. Nas escolas públicas essas tecnologias são praticamente inacessíveis e, mesmo assim, essas escolas continuam sendo alvo de uma demanda em massa. Todos querem estar nas escolas, mesmo que muitos deles não saibam dar valor ao conhecimento e considerem a escola como um simples lugar de convívio social, como se fosse um clube. Buscam nelas alguma coisa diferente daquilo que não encontram em casa ou que julgam ser muito importante para mudar suas vidas. Em pesquisa diagnóstica feita habitualmente nas primeiras semanas de aula, sempre solicitamos aos alunos algumas opiniões e expectativas sobre a escola, a família, o mundo e o futuro. A maioria manifesta uma grande esperança na instituição escolar e no trabalho dos educadores, esperando que nós enfrentemos junto com eles as suas dificuldades. Os itens que mais aparecem nas expectativas, e que transparecem claramente como carências pessoais, são esses:

· Professores que ensinem coisas para usar na vida, no mundo lá fora;

· Diretores amigos e mais próximos;

· Que a escola seja uma família e um lar para os alunos;

· Mais amizade, companheirismo e menos violência;

· Organização e limpeza;

· Eventos: festas, comemorações, exposições, festivais, bailes;

· Melhor qualidade na merenda;

· Bom ensino dos professores;

· Paciência com os alunos com dificuldades;

· Que eles mesmos mudem de comportamento e se tornem bons alunos;

· Que eles sofram cobranças por parte dos educadores;

· Justiça e rigor nas avaliações, incluindo reprovações;

· Faltas constantes dos professores ao trabalho;

· Mais disciplina e controle das suas próprias ações;

· Mais compreensão com o jeito de ser e a condição adolescente dos alunos.


Isso é um sinal evidente de que as coisas não estão indo bem nas escolas porque há uma grande defasagem entre o currículo tradicional e as necessidades dos alunos. Não se trata apenas de oferecer ciência e tecnologia nas aulas, mas também a oportunidade de mudança de pontos de vista, de rumos e destinos. Existem muitos problemas e obstáculos nas escolas que a tecnologia e a ciência não conseguem detectar e atingir. São questões humanas imprevisíveis, que não podem ser antecipadas nos planejamentos e nos planos e de aula. Muitos desses obstáculos aparecem camuflados nessas opiniões e expectativas que citamos. Como sempre fomos um setor conservador, sacralizado e dogmático, demoramos mais para reconhecer os nossos limites e que também deveríamos sacudir a poeira dos escombros e reinventar a escola. Essa reinvenção, enquanto as coisas não mudam definitivamente, significa também a adoção de novos pontos de vista, o abandono da arrogância e do orgulho, a mudança do olhar para outros enfoques. Como dizia Jesus, temos que “ser inteligentes como as serpentes, porém simples como as pombas”. É claro que esses novos olhares não representam a busca de soluções miraculosas e imediatistas. A escola somos nós e não o sistema escolar. Se não podemos mudar o sistema, podemos alterar a essência natural da escola, que são os nossos pontos de vista e os nossos sentimentos.

Outra marca sócio-espiritual importante do planeta Terra é o imperativo da Lei do Trabalho, recurso natural evolutivo que em mundos de expiações e provas é quase sempre associado ao sofrimento e à escravidão. A história da Humanidade terrena é também a história do trabalho, da transformação da natureza e da produção de riquezas. As diferenças entre os seres são também as diferenças entre as habilidades do trabalho físico e do trabalho intelectual, determinando os desequilíbrios sociais, reflexo das diferenças na distribuição dessas riquezas. A escravidão só foi abolida legalmente em nosso planeta há pouco mais de um século, porém no mundo atual, milhões de pessoas, incluindo crianças e jovens, são mantidas em condições desumanas de trabalho, verdadeiros cativeiros. Em nosso País há constantes denúncias de exploração do trabalho escravo, onde encontramos pessoas analfabetas e de cultura rústica e atrasada. Como explicar esses contrastes, quando vivemos num mundo altamente tecnológico. Nas escolas acontece o mesmo fenômeno: de um lado temos um ensino altamente científico e avançado e do outro uma boa parte da clientela escolar completamente indiferente, que não consegue valorizar tais condições. Alguns educadores acham que tal indiferença é somente um defeito didático, ineficiência no processo de ensino-aprendizagem. Outros acham que o defeito está na índole dos alunos e que nenhum tipo de tecnologia ou procedimento didático-educativo é capaz de mudar essa rejeição pelo conhecimento oferecido nas escolas. Outros ainda lembram que o problema está no tipo de conteúdo, ou ainda no caráter desse conhecimento. Os conteúdos positivos são fortemente rejeitados ou aceitos apenas parcialmente, desde que não haja exigência positiva de mudança de comportamento. Nem é preciso dizer que os conteúdos negativos são rápida e facilmente aceitos e assimilados.

Certamente estamos vivendo um importante momento de crise. Todos querem saber onde vamos parar. Todos querem saber as causas e conseqüências desse desequilíbrio social no qual o Estado, a Família e a Escola não conseguem estabelecer um consenso sobre os rumos que devem ser tomados para reverter essa situação. Quando não há perspectiva para o futuro também não há sentido para o presente, muito menos interesse pelas referências do passado. Um bom exemplo para refletir sobre essa situação caótica são as estatísticas de suicídio entre os estudantes. O Suicídio
[3] é sempre um tabu , mesmo nas escolas, onde deveria ocorrer maior abertura para tratar do assunto. Recentemente lemos um estudo da OMS - Organização Mundial de Saúde sobre esse grave problema social (hoje classificado como item crítico de saúde pública) e nos causou espanto não somente o conteúdo do estudo, mas principalmente o fato deste ter sido elaborado especialmente para os educadores e tratado com indiferença nas escolas. Não cremos que essa indiferença seja insensibilidade dos gestores e educadores, mas o receio de lidar com o desconhecido. Eis algumas anotações sobre a nossa leitura:

“No mundo inteiro, o suicídio está entre as cinco maiores causas de morte na faixa etária de 15 a 19 anos. Em vários países ele fica como primeira ou segunda causa de morte entre meninos e meninas nessa mesma faixa etária. Sendo assim, a prevenção do suicídio entre crianças e adolescentes é de alta prioridade. Devido ao fato de em muitas regiões e países a maioria dos adolescentes dessa idade freqüentarem a escola, este parece ser um excelente local para desenvolvermos a prevenção”.

“Atualmente, o suicídio entre crianças menores de 15 anos é incomum e raro até antes dos 12 anos. A maioria dos suicídios ocorre entre as crianças maiores de 14 anos, principalmente no início da adolescência. Porém, em alguns países está ocorrendo um aumento alarmante nos suicídios entre crianças menores de 15 anos, bem como na faixa etária dos 15 aos 19 anos”.

“Os métodos de suicídio variam entre países. Em alguns países, por exemplo, o uso de pesticidas é um método comum de suicídio, contudo, em outros, intoxicação com medicamentos e gases liberados por carros e o uso de armas são mais freqüentes. Meninos morrem muito mais de suicídio que as meninas; uma razão pode ser porque eles usam métodos violentos mais freqüentemente que as meninas para cometer suicídio, como enforcamento, armas de fogo e explosivos. Entretanto, em alguns países o suicídio é mais freqüente entre meninas entre 15 e 19 anos que entre meninos da mesma idade. Nas últimas décadas a proporção de meninas usando métodos violentos tem aumentado”.

“Reconhecer uma pessoa jovem em sofrimento, que precisa de ajuda, normalmente não é o problema. Saber como reagir e responder frente a crianças e adolescentes suicidas é muito mais difícil. Alguns funcionários de escolas têm aprendido a lidar com o sofrimento e com os estudantes suicidas através da sensibilidade e do respeito, enquanto outros não. As habilidades deste último grupo devem ser aprimoradas. O equilíbrio a ser alcançado no contato com o estudante suicida está em algum ponto entre a distância e a proximidade, e entre empatia e respeito”.


Ora, respeito e empatia não são técnicas profissionais especializadas da medicina ou da psicologia. São atitudes humanas comuns, de pessoa para pessoa. São posturas desprovidas de receio e preconceito, necessárias em qualquer relação interpessoal. Professores empáticos e respeitosos despertam a confiança nos alunos e estes, percebendo a disponibilidade natural e o interesse sincero pelas suas dificuldades, muitas vezes desistem de planos sinistros de auto-destruição pelo suicídio ou destruição dos outros, pela violência homicida. Estar disponível para ouvir e compreender não significa assumir a responsabilidade de resolver os problemas dos outros. As pessoas que pedem ajuda têm consciência de que elas é que devem tomar decisões sobre seus problemas e quando buscam alguém para conversar só querem compartilhar seus sentimentos. Não é preciso ter medo de lidar com essas situações limites. Pior é se omitir, alegando despreparo. Chad Varah, reverendo anglicano, criador dos “Samaritans” em Londres, o maior serviço mundial de prevenção do suicídio, através de voluntários leigos, relata em suas memórias que esse trabalho foi iniciado por ele quando soube do suicídio de uma menina de apenas 14 nos, por um motivo aparentemente fútil: ao ter os primeiros sintomas da menstruação, matou-se por achar que havia contraído uma doença venérea Essa desinformação, aliada ao preconceito, tem gerado inúmeras tragédias em todo o mundo. No Brasil esse trabalho voluntário vem sendo feito há mais de 40 anos pelo CVV- Centro de Valorização da Vida. Nessas quatro décadas o CVV apreendeu e ensinou muito sobre solidão e suicídio apenas ouvindo desabafos. Desenvolveu-se ali um precioso programa preventivo muito respeitado e utilizado por entidades médicas e governamentais. Tudo é muito prático, pelo telefone ou contato pessoal, e começa com um gesto bem simples: “CVV, bom dia (ou boa noite). Fique à vontade, estou aqui para ouvir você...”, diz sempre o voluntário. Os fundadores do CVV, depois de 40 anos de atividades, criaram o CRC- Caminho de Renovação Contínua, um programa educativo, inicialmente direcionado para os seus voluntários, e hoje oferecido como núcleos comunitários em todo o Brasil, incluindo escolas
[4]. Depois de muita pesquisa e reflexão, a OMS chegou à conclusão que os educadores, mesmo porque eles também se matam, são os melhores instrumentos para dissipar essa estúpida ignorância social. Vejamos algumas sugestões que eles nos dão para contribuir para a diminuição dessas estatísticas drásticas de mortes prematuras de jovens e crianças:

“O suicídio não é um flash incompreensível da depressão: estudantes suicidas dão avisos suficientes e oportunidades para intervenção. Na prevenção do suicídio, professores e funcionários da escola encaram um desafio de grande estratégia importante, no qual é fundamental:

• identificar estudantes com transtornos de personalidade e oferecer apoio psicológico;

• criar vínculos próximos com os jovens conversando com eles e tentar compreendê-los e ajudá-los;

• aliviar estresse mental;

• ser observador e treinado para o reconhecimento precoce de comportamentos suicidas, seja através de comunicações verbais e/ou mudanças de comportamentos;

• ajudar alunos menos habilidosos com seus trabalhos escolares;

• observar alunos que “matam” aulas;

• desmistificar os transtornos mentais e ajudar a eliminar o abuso de álcool e drogas

• encaminhar os estudantes para o tratamento de transtornos psiquiátricos, e abuso de álcool e drogas;

• restringir o acesso dos estudantes a métodos possíveis de suicídio – drogas tóxicas ou letais, pesticidas, armas de fogo e outras armas, etc.;

• prover aos professores e outros profissionais da escola acesso a formas de aliviar seu estresse no trabalho”.


Esse trabalho dos Samaritans, nas Ilhas Britânicas; do CVV, no Brasil; do SOS L’Amitié, na França; ou do Telefono Amico, na Itália, agora reconhecidos internacionalmente pela OMS, não está fora do contexto, nem se trata de uma atividade “estranha” aos problemas sociais e familiares. Eles fazem parte do contexto educacional e de uma nova mentalidade que veio se estruturando no planeta, também a partir dos anos 1950, no auge da corrida armamentista nuclear e da explosão urbana. Era o movimento de Emergência da Pessoa, reação contra a solidão e o abandono de seres humanos, às relações de frieza utilitárias entre as pessoas e a intensa massificação da sociedade de consumo e do desperdício. Nessa época surgiram em todo o mundo as contra-correntes de regeneração social: os pacifistas, os ecologistas, os humanistas, os qualitativistas, enfim, todas as idéias e atitudes contrárias á degeneração planetária já em franco andamento nesse período. Foi desses grupos, inicialmente pequenos e isolados, em vias de marginalidade e rejeição, que originaram as futuras ONGs dos anos 1990. Dez anos antes, na Califórnia, EUA, surgia a famosa “Conspiração Aquariana
[5]”, formada por ativistas do mundo artístico e científico-acadêmico, assim descrita por Marilyn Ferguson na abertura do seu memorável texto profético sobre as mudanças pelas quais passaria a sociedade americana e mundial nas décadas seguintes :

“ Uma rede poderosa, embora sem liderança, está trabalhando no sentido de provocar uma mudança radical nos Estados Unidos. Seus membros romperam com alguns elementos-chave do pensamento ocidental, e até mesmo podem ter rompido com a continuidade da História”

Na mesma época , Carl Rogers, revolucionário da psicologia e da educação, no apogeu da sua experiência e lucidez, publicava, juntamente com a sua constatação sobre a vida espiritual, as impressões sobre a possibilidade do fim da civilização ou então as dores do parto de um novo mundo e de uma nova pessoa. Rogers previa o nascimento de uma nova geração que iria abalar definitivamente as estruturas dogmáticas e violentas da ordem mundial imposta pelas superpotências da Guerra Fria e do Terrorismo:


“Nosso mundo está em uma tumultuada agonia, agonia sem parto. Isto bem pode ser a desintegração precedente à destruição de nossa cultura pelo suicídio de um holocausto nuclear. Por outro lado, o terrorismo, a confusão, o desmoronamento de governos e de instituições podem ser as dores de um mundo em trabalhos de parto (...) nas aflições do nascimento de uma nova era (...) do nascimento de um novo ser humano, capaz de viver nessa nova era, nesse mundo transformado. Estamos diante não de uma, mas de várias mudanças inevitáveis de paradigmas. Os velhos padrões se desvaneceram. Isto nos inquieta e nos deixa incertos”.


[1] Consulte: “ A Gênese”, de Allan Kardec, várias traduções e edições. “A Caminho da Luz”, do Espírito Emmanuel, pelo médium Chico Xavier. Feb Editora; “Os Exilados da Capela”, de Edgard Armond. Ed. Aliança. “Mensagens do Astral”, do Espírito Ramatis, pelo médium Hercílio Maes. Editora do Conhecimento. Em 1981 o psicólogo e educador Carl Rogers, da Universidade da Califórnia, publicou um texto revolucionário denominado “Um novo mundo, uma nova pessoa”, falando sobre as grandes transformações pelas quais passaria o planeta na atual transição de século e milênio. “Em busca de Vida”. Summus Editorial.
[2] Embora esses lugares de perfeição fossem metáforas da mente e da auto-realização, as coletividades espirituais são realidades incontestáveis. No caso da maioria dos habitantes do nosso planeta, o Espiritismo denomina esses ambientes de “Erraticidade”, que é a situação dos Espíritos não encarnados durante os intervalos de suas existências corporais.
[3] A tendência suicida pode ser influência de Espíritos suicidas e também se manifesta fortemente como prova (situações difíceis) em Espíritos rebeldes que já cometeram suicídio em outras encarnações. Eles geralmente renascem com graves problemas fisiológicos (deformações internas e externas) efeito das agressões contra seus antigos corpos físicos, mas que ficaram gravadas perispírito (corpo mental-espiritual).
[4] Trata-se de um grupo de encontros vivenciais rotativos com regras de funcionamento muito simples e eficientes para a educação emocional de pessoas de todas as idades. No currículo do CRC predomina a interiorização pela introspecção e não a exteriorização pela verbalização intelectual. Os temas abordam assuntos existenciais escolhidos pelos próprios participantes, que falam mais do que sentem e menos do que pensam. Não há espaço para polêmicas religiosas ou políticas.
[5] Ver a bibliografia indicada pelo autor.