01/12/2007

A Cultura Espiritual na Escola

Alunos curiosos: toda pergunta merece uma resposta.


Primeiramente devemos lembrar que praticamente todas escolas têm gravado em suas identificações o nome e a lembrança de personalidades históricas e de inúmeros professores que já fizeram sua passagem para o mundo espiritual. Quadros com fotografias antigas, estátuas e outros objetos recordam constantemente aos que ficaram que um dia eles foram alunos ou educadores. Muitos deles hoje já estão reencarnados e labutam nas mesmas atividades onde falharam ou tiveram êxito, renovando e enriquecendo suas experiências evolutivas. Essa é a cultura da Memória (Mnemósine), o próprio espírito do tempo (Cronos) e da História (Clio).

Por outro lado temos também a cultura dos costumes e das mentalidades.

Quem não conhece a história da Loira do banheiro que, nos anos 70, apavorou toda uma geração de estudantes e que na década seguinte foi substituída pelo saudoso Fred Krugger?

Pois é.... sempre que esse assunto vem à tona nas salas de aula a maioria dos professores e alunos apelam para a razão e rotulam o tema de superstição e bobagem. Mas também sempre aparece alguém que dá um sorrisinho malicioso para lembrar que nem tudo é bobagem e superstição. Ao ser levantada essa hipótese, imediatamente o clima da conversa toma outros rumos diante dos olhares atentos e fisionomias de espanto.

Depois que os filmes de terror foram substituídos por roteiros espíritas, como “O Sexto Sentido” e “Os outros”, as conversas sobre esses assuntos não são mais as mesmas. Depois que o menino que vê gente morta em todos os lugares, principalmente naquela cena em que ele acessa no éter a imagem de antigos moradores enforcados nas vigas do telhado da escola, não sobraram muitos argumentos para os céticos. Nesses instantes alguns alunos, geralmente as meninas, começam a contar suas experiências “sobrenaturais”, enquanto outros, geralmente meninos, iniciam uma campanha de ridicularização dos relatos. Outros, meninos e meninas, permanecem em silêncio, atentos, como expectadores de um jogo perigoso à espera de um resultado nada previsível. Aí, então, vêm as perguntas fatais:

- O senhor já viu ou conversou com Espíritos”?

- Qual a sua religião?

- Professor, o senhor acredita em reencarnação?

O professor, acuado entre o dever e o prazer, entre a cautela e a ousadia, olha para a porta da sala, para ver se não está sendo vigiado, e aqueles poucos segundos antes de dar a sua resposta se transformam em anos de dúvidas e incertezas: “Será que devo responder? Devo me omitir? O que devo dizer? Como poderei responder? Qual será a repercussão da minha fala? Quais as conseqüências do meu ato?

As escolas são lugares tidos como neutros, locais públicos de muitas possibilidades, mas também, por isso mesmo, de muitas proibições. Numa escola, onde naturalmente se estabelece um jogo de poder entre quem educa e quem vai ser educado, quem vai ensinar e quem vai aprender, entre quem vai avançar e quem vai recuar, acaba predominando a lei do mais forte, ideologicamente falando.

Numa escola, ambiente supostamente neutro e público, mesmo que seja escola particular, quem tem conhecimento realmente tem poder. Por isso, nesse ambiente nem tudo que é público deve ser notório; nem tudo que é possível deve ser realizado. Esse é o paradigma dominante; esse é o paradigma que atualmente não deve ser desafiado, mas que pode ser mudado. O paradigma dominante é o da matéria; e o novo a ser implantado é o do espírito. Tocar no assunto espiritualidade em ambientes neutros talvez seja mais tabu do que em lugares assumidamente contrários ao assunto. Nessas situações a timidez rapidamente se transforma em receio e este deságua fatalmente na omissão. Pronto: lá se foi mais uma oportunidade de falar sobre as coisas que habitualmente não podem ser ditas, mas que a gente tanto gostaria de falar. Como na música de Fátima Guedes, trilha sonora na primeira versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo, falando de fadas, gnomos e duendes, “São segredos nossos, quisera falar das coisas que não posso...”. Não podemos esquecer que o paradigma científico também é repleto de ideologia, veículo histórico, como as religiões tradicionais, de idéias das classes dirigentes e dominantes que camuflam interesses muito específicos. Quando se proíbe a manifestação da ideologia religiosa e espiritualista nas escolas alega-se que não se trata de temática científica (como se esta estivesse acima de qualquer suspeita ), pois esse tipo de proselitismo é injusto, pois os alunos não têm como reagir e contestar a influência da autoridade do educador. Ora, seguindo esse mesmo raciocínio, por acaso os alunos possuem condições de criticar e contestar o proselitismo científico, carregado de elementos ideológicos particulares dos educadores? Outro detalhe importante: a maioria absoluta de alunos e educadores acreditam em Deus e professam algum tipo crença religiosa. São constantemente treinados mentalmente em suas bases religiosas para rejeitar discursos novos e ameaçadores às suas ideologias. Alguns realizam verdadeiras ginásticas de racionalidade intelectual para neutralizar idéias consideradas perigosas. O exemplo mais conhecido é o choque criacionismo versus evolucionismo
[1]. Portanto, quem é o peixe fora d’água nessa história? A ciência divulgada no ambiente escolar, nesse caso, têm sido útil apenas para esconder a verdade e não para desmistificar as coisas superadas e apontar novos rumos de mentalidade, que seria seu verdadeiro papel educativo. O problema é que a chamada ciência oficial, acadêmica, bem como seus corifeus humanos e imperfeitos, não está preparada para encarar paradigmas que desafiam sua própria credibilidade.

Mesmo que esses ambientes neutros estejam saturados de espiritualidade, no sentido de abundância fenomenal , quando intentamos quebrar o gelo, surge uma reação espontânea que nos alerta sobre os riscos de ousar num território proibido, que já possui domínio e forte tradição conservadora. É o terreno do materialismo, senhor e soberano das meias verdades, onde não há cabimento e sentido para as coisas do espírito. É o conhecido mundo de César, onde não há espaço para o desconhecido mundo de Deus. Aliás, existe sim, desde que seja o pensamento credenciado, institucional e já reconhecido como idéia “oficial”, já contaminada pelas meias verdades. O Deus e o Homem da tradição mitológica das religiões antigas são permitidos, pois não representam nenhuma ameaça ao avançado sistema tecnológico. O Homem da tradição zoológica darwinista também é permitido nas escolas, mesmo que seja uma ameaça ao sistema dogmático. Isso se faz com uma solução simplista e política: uma coisa é fé e outra coisa é ciência. Separando bem essas duas coisas, não haverá questionamentos nem conflitos... Mas o Deus Cósmico de Spinoza e do universo quântico de Einstein, ou seja, a Mente Universal em constante Criação e Expansão, ainda é assunto proibido, pois essa quebra de paradigma ainda não foi digerida pelos religiosos, muito menos pelos cientistas de plantão. Falar de um Deus que não seja humano velho e barbudo, de um universo que não seja mecânico e previsível, de outras dimensões e percepções extra-sensoriais que não sejam a dos cinco sentidos, de seres extra-terrestres que não sejam anjos ou demônios ou formas esdrúxulas e suas esquisitas espaçonaves da ficção científica, tudo isso nos assusta e nos faz recuar, como os hereges escaldados. Esse medo se agrava quando estamos em ambientes de uso coletivo e qualquer manifestação mais atrevida pode ser rotulada de sobrenatural ou então de ação isolada e individual. Reparando bem, olhando bem de perto, ninguém é absolutamente normal. Mas não queremos correr o risco de sermos taxados de loucos ou perturbados. Sem contar os reacionários, inimigos espontâneos e gratuitos da razão, sempre prontos a defender a tradição que eles mesmos não aprovam ou acreditam.

A escola como espaço de conhecimento ampliou muito a sua natureza neutra, e também através do aumento da diversidade de freqüentadores e da pluralidade cultural conseqüente dessa freqüência diversa. Paradoxalmente, esse fator também ampliou a proibição e o tabu, pois o que antes era exclusivo das idéias oficiais, passou a ser de todos e agora é de ninguém, no sentido mais amplo e inibidor, até vergonhoso, de que não pode, não deve, não é sadio, não é viável nem recomendável. Um exemplo disso é a recente tentativa de oficializar o ensino religioso. A idéia partiu do clero educacional católico, preocupado com a expansão protestante, baseada em estatísticas e também na crença de que o catolicismo é a preferência religiosa da maioria dos brasileiros. É a preferência formal, pelo hábito cartorial de estar vinculado a uma instituição, mas não é a preferência habitual e de fé, pois as mesmas estatísticas mostram outros hábitos e crenças na população brasileira e que não constam no credo católico e protestante. A medida legal foi posta goela abaixo como lei votada no Parlamento, porém quando chegou nas escolas teve o mesmo destino dos decretos e bulas: passou pelo crivo racional e teve que se adaptar ao modelo curricular vigente, ou seja, virou História das Religiões ou tema transversal, simples pretexto para o diálogo inter-religioso. Como este último é do interesse de uma minoria insignificante, a disciplina tornou-se apenas mais uma alternativa de renda financeira através de algumas horas-aula a mais. O ensino religioso já nasceu morto. Já a espiritualidade permanece viva, mas continua proibida aos tímidos, porém não aos atrevidos, pois o ambiente continua transbordando...

Em todas as sociedades humanas encontramos fartos exemplos da cultura espiritualista, geralmente camuflada em forma de mitos e metáforas. Essa tradição sempre foi explorada artisticamente pela literatura infanto-juvenil. Walt Disney levou essa cultura para o cinema, através do desenho animado, e até hoje a empresa que ele fundou mantém essa linha de conteúdos espiritualistas ou de forte reflexão existencial. No Brasil essa abordagem teve a preciosa contribuição do escritor Monteiro Lobato e também de um conhecido discípulo de Disney, o cartunista Maurício de Souza. Não podemos esquecer um importante aliado cultural, tipicamente brasileiro, a favor da educação para a espiritualidade. Aqui também aconteceu um fenômeno histórico que abriu definitivamente as portas para essa outra dimensão do universo, apesar do stablishment repressivo imposto pelo clero católico desde o período colonial, e também a pseudo-proibição “científica” do legalismo educacional. Trata-se da miscigenação racial e da mistura de crenças e costumes ocorridas em mais de 500 anos de história. Desse longo e intenso convívio entre índios, negros e brancos, ainda que pesasse o predomínio político do elemento europeu, resultou no campo da cultura espiritual o sincretismo religioso brasileiro, no qual herdamos do indígena e do africano as crenças mágicas das selvas: o curandeirismo natural e fraterno, as práticas medianímicas
[2] e ritualísticas da comunicação com Espíritos ancestrais e finalmente, o misticismo simples e sincero do cristianismo praticado em Portugal. Costumamos exemplificar essa mistura irreversível de costumes no clima do carnaval, em cuja origem imaginamos o encontro “casual” da dança indígena, do lundu dos escravos e de uma procissão católica, formando uma apoteose cultural chamada Brasil. Tirando a irreverência e a falta de compromisso da festa carnavalesca, o que sobra é a espiritualidade primitiva praticada nos terreiros de candomblé - e mais recentemente da umbanda , onde Espíritos africanos e indígenas se confraternizam para orientar e proteger seus descendentes, credores e devedores, incluindo milhares de almas lusitanas que causaram danos a eles no período da escravidão colonial. Com a chegada do Espiritismo no século XIX, pela moda burguesa das mesas girantes[3]” trazidas de Paris por franceses que moravam no Brasil ou por brasileiros curiosos que lá estavam, esse contato com espiritualidade adquiriu novos ares de liberdade filosófica e ciência experimental, inclusive com a participação de sacerdotes católicos interessados pela nova revelação espiritual, na medicina homeopática e também no socialismo utópico. Estes últimos foram estimulados no Brasil pelas 200 famílias trazidas da França para instalar uma colônia fourrierista em Santa Catarina, em 1842. Como se sabe, os socialistas Fourrier e Saint-Simont, Robert Owen e o médico Benoit-Julles Mure [4](fundador da colônia catarinense) , eram espiritualistas e reencarnacionistas convictos. O próprio imperador Pedro II, que permitiu a vinda desses imigrantes franceses para o Brasil, era publicamente simpático a todas essas idéias. Por aí se vê que o nosso País possui longa tradição e tendência espiritualista.

Portanto, não é coincidência que nas salas de aula persistam, depois de tantos anos de modismo, as conhecidas brincadeiras do copo ou do lápis, onde se buscam respostas pelo contato com as forças “sobrenaturais”. Quando isso acontece em nossas aulas, nos aproximamos calmamente da turma para participar e orientar a brincadeira para rumos positivos e esclarecer que não há nada de sobrenatural, mas um diálogo possível e muito natural, desde que não seja fútil e desrespeitoso. Na última vez que assim fizemos, uma aluna muito rebelde e irreverente ( na época o pai dela estava preso), surpreendeu-se ao questionar a minha presença na roda. Perguntou ao Espírito se nós éramos do bem ou do mal. O lápis foi girado diversas vezes e sempre indicava o sentido o bem. Mesmo continuando irreverente e rebelde, a aluna mudou radicalmente o seu tratamento com a nossa pessoa , passando a ser mais receptiva e a retribuir as nossas demonstrações de carinho e sugestões de conduta. Numa calma noite de sono físico, dessas em que adormecemos profundamente, sem interrupção, fomos levados, em desdobramento, a um lugar escuro e assustador, onde havia estradas desertas e uma mata fechada, cercada por enormes barreiras de arame farpado. Lembramos-nos nitidamente de estar lá chamando essa aluna e algumas “amigas” desconhecidas, que corriam para a escuridão, dando muitas gargalhadas e atraídas por mentes obscuras, para retornar aos pontos de luz e de aprendizagem. Não foi sonho comum, pois era uma situação muito real e muito lógica, sem as características da manipulação mental do inconsciente. Tivemos a certeza de que era uma atividade de auxílio espiritual porque a nossa mãe carnal estava junto conosco e , no outro dia, sem saber do assunto, confirmou essa nossas “andanças” por esses planos baixos.

Mesmo que a repressão dogmática sacerdotal e o modismo promissor das igrejas evangélicas tentem ofuscar essa realidade, os brasileiros não têm como negar as suas raízes e suas tendências espiritualistas. O Brasil será, em breve a maior nação reencarnacionista do planeta. O Espírito Emmanuel, mentor do médium Chico Xavier, em suas famosas mensagens do Além, afirmou que no século XX mais de vinte milhões de almas francesas e européias, muitos dos quais militavam nos milhares de núcleos kardecistas daquele continente, hoje extintos, reencarnaram no Brasil. Isso explica porque os brasileiros, mesmo sendo socialmente adeptos de outras religiões, são simpáticos ao universo cultural espírita. Quando olhamos nas atitudes simples e alegres e nos olhos dos nossos alunos (mulatos, cafuzos, mamelucos e uma grande maioria de pardos) enxergamos nitidamente o brilho da espiritualidade dos seus antepassados. Mesmo nas igrejas protestantes já não se contém mais essa grande força cultural brasileira, adotando-se nelas as práticas de terreiros (os trajes brancos e os banhos de descarrego do candomblé e da umbanda), a doutrinação de Espíritos revoltados e as obras de caridade dos centros kardecistas. Nunca esquecemos de uma cena que ilustra bem essa marca da nossa cultura. Quando cursávamos o antigo Colegial numa escola do litoral, víamos sempre duas amigas adolescentes se dirigirem para a praia, enquanto uma, de origem africana, entrava no mar para fazer uma oferenda com flores, a outra, branca e provavelmente católica, aguardava na calçada, o retorno feliz da amiga, por ter cumprido sua obrigação religiosa. É assim que, provavelmente, no ambiente escolar, certamente encontramos essa espiritualidade plural formada por anjos, orixás, pretos-velhos, caboclos, Espíritos de luz, espíritos santos, enfim, inteligências de outros planos e dimensões, sempre atentas e vigilantes quanto aos destinos dos seus entes tutelados encarnados.

Nas relações entre o Espiritismo e o Cristianismo, bem como entre o Brasil e a França, emergiu outro importante fator histórico: a heresia. Os dois países são respectivamente o berço e a florescência da heresia cristã, através do cristianismo de Lyon, considerado o mais puro e fiel aos tempos apostólicos, recusando terminantemente a idéia política do papado e o materialismo das religiões de Estado; e mais tarde do Espiritismo, pois Allan Kardec era lyonês e, mesmo não sendo criado naquela região, definiu o grupo espírita da sua cidade natal como o mais sintonizado com esse advento histórico da 3ª Revelação. Nessa perspectiva histórica, as três grandes revelações espirituais para a humanidade foram revolucionárias e heréticas em relação às tradições dominantes: o monoteísmo mosaico, com os Dez Mandamentos; o Evangelho Crístico, com o Sermão da Montanha; e a Doutrina dos Espíritos, com a falange encarnada e desencarnada do Espírito Verdade, conforme a promessa de Jesus sobre o Consolador ou o Paracleto, no relato do apóstolo João (14 e 15 ). O Brasil também vai ser o palco mais prolífico da heresia cristã, ou seja, o cultivo da autonomia e das raízes mais remotas do cristianismo primitivo, que praticava a mediunidade (profetização) nos ágapes dominicais e aceitava naturalmente a reencarnação. Para a ortodoxia católica e protestante ,ideologicamente já corrompida e conivente com as superstições populares, a heresia é um vírus ideológico, uma inimiga da fé e da filosofia cristãs. É vista como um pecado e é atribuída ao mito de Satanás. Para os espíritas, ao contrário, a heresia, que em grego significa liberdade de pensamento e expressão, é um anticorpo que combate os inúmeros riscos de contaminação e desvios da ética do Cristo. Historicamente, a heresia sempre surgiu nos momentos em que a fé cristã sofreu abusos por parte do clero e do Estado. Mesmo que a suas manifestações parecessem incultas e exóticas, eram na verdade contextualmente proporcionais aos desvios, cujos abusos também lhes pareciam exóticos e completamente fora do normal. Aliás, as acusações de heresia, como se esta fosse algo sujo, imundo, profano, imoral, partiu sempre daqueles núcleos clericais corrompidos, antros de moralismo, ambição de riqueza e poder, onde se escondiam as mais terríveis perversões ideológicas contra o Evangelho. Este, sim, foi o espírito demoníaco, instaurado, por exemplo, pela Inquisição e seus tribunais sinistros, que sustentavam criminosamente os títulos de santidade. Este é o espírito das trevas que tenta seduzir, viciar e aterrorizar o povo com falsos milagres, mil promessas e terríveis ameaças através das teologias da prosperidade material e salvação da própria pele. Já o Evangelho autêntico abre os olhos aos cegos, ilumina os caminhos, dissipa as trevas, confunde os orgulhosos e glorifica os justos. Foi esse espírito da heresia que animou homens corajosos como Agostinho, Francisco de Assis, Tereza D’ Ávila, Jan Huss e Martinho Lutero, desafiando os abusos religiosos e mostrando o caminho correto da religiosidade.

Voltando ao que pode ou o que não pode na escola, não existe proibição ou impedimento legal para abordar o tema espiritualidade no ambiente escolar. O Estado é leigo e não existe de fato, desde a proclamação da República, uma religião oficial no Brasil. O que existe é uma recomendação ética sobre o proselitismo ofensivo e a imposição de idéias que agridam a liberdade de pensamento e de culto na sociedade. Isso quer dizer que, por mais correto e legítimo que seja, qualquer tentativa de oficializar ou legalizar essa prática representaria um verdadeiro desastre nos propósitos de alertar e esclarecer as pessoas sobre a realidade espiritual. Outro fator agravante é que, num ambiente predominantemente intelectual, a diversidade de condições de maturidade espiritual indica que nem todas as mentes estão preparadas para conhecer certas verdades e que é necessário aguardar o momento certo, a oportunidade mais adequada. E isto não pode e nem deve fazer parte de planejamentos escritos e previsíveis. O setor da mente humana que está aberto para essas informações é imprevisível (ver a Parábola do Semeador) e a didática que servirá de veículo para elas deve ser regida pelo fator intransitivo, ou seja, quem decide não é o educador e sim o educando. Então, as coisas espirituais, ao contrário das coisas intelectuais explícitas, serão ensinadas nas entrelinhas implícitas do currículo, nem na linha vertical, muito menos na horizontal. Ela vai acontecer, como a própria mediunidade entre Espírito e Matéria, no plano transversal. Embora os temas transversais sejam previstos nos PCN
[5], a nossa abordagem não deve, ao nosso ver, em momento algum ser formalizada, muito menos oficializada. Essa transversalidade é essencialmente informal, é de momento, repente criativo, insight, plantada em doses moderadas de semente e adubo, até que aconteça, de acordo com as condições de fertilidade e natureza do solo (aluno) a germinação. Somente depois dessa fase quantitativa e primitiva da agronomia metafísica e que ocorre a aprendizagem qualitativa, desenvolvida gradualmente num processo educacional iniciático, o conhecido “segredo” entre mestres e discípulos. “Quê! Sois mestres em Israel e não sabes dessas coisas!”, espantou-se Jesus com Nicodemos ao constatar que o sacerdote ignorava essa óbvia diferença entre saber e ensinar as coisas da matéria e as coisas do espírito. Nesse diálogo clássico da andragogia, Jesus revela um segredo para Nicodemos e o alerta sobre a responsabilidade da posse e da transmissão do conhecimento.





[1] Nos EUA, país de alto nível científico e tecnológico, paradoxalmente, encontra-se inúmeras comunidades fundamentalistas, freqüentadas por pessoas de boa formação intelectual e que estimulam a mistificação de temáticas científicas. Recentemente foi criado um museus do criacionismo, com um falso discurso científico, colocando no mesmo patamar de crenças as pesquisas acadêmicas e a ideologia bíblica herdada dos hebreus.
[2] Qualidade da faculdade dos médiuns, permitindo a esses o exercício intermediário entre os Espíritos e os homens.
[3] O grande escritor francês Victor Hugo e sua amiga George Sand, companheira de Chopin, foram célebres praticantes desses contatos com Espíritos. Sand era também amiga do casal de professores Amélie Boudet e Rivail Hypolité, mais tarde famoso pelo pseudônimo Allan Kardec. Rivail foi aluno e substituto de J.H. Pestalozzi no Instituto de Yverdon, na Suíça.
[4] O Dr. Mure fundou a primeira escola de medicina homeopática no Brasil, praticava curas com passes magnéticos e era adepto das idéias educativas progressistas de Emilien Jacotot.
[5] Parâmetros Curriculares Nacionais, que são indicadores de objetivos, conteúdos e práticas de ensino a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Um desses objetivos diz claramente: “Conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sócio-cultural brasileiro, bem como aspectos sócio-culturais de outros povos e nações, posicionando-se contra qualquer discriminação baseada em diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo, de etnia ou outras características individuais e sociais”. MEC, Brasília, 1998.

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