01/12/2007

Professor Transversor

Sociedade do Poetas Mortos talvez seja a melhor expressão atual da parábola do semeador, cuja essência é o problema do livre arbítrio e a dicotomia ensino-educação. O protagonista é um típico aliciador espiritual ou então um “educador transversor”, mistura de agente social que é ao mesmo tempo transgressor de regras e proponente de novos paradigmas comportamentais. É o típico professor nato, de fé e vocação.


Uma proposta para ensinar a espiritualidade nas escolas não deve ter a marca aberta da propaganda artificial exotérica, explícita e exterior, nem a pretensão oficial, do mundo profano, de ser contemplada com um espaço curricular, de conteúdos intelectuais doutrinários, e sim a marca vivencial esotérica, implícita, de intenção sagrada e espiritual. Espiritualidade autêntica não combina com proselitismo. Professores de verdade são brilhantes instrutores intelectuais, mestres das soluções para as necessidades do mundo fenomenal exterior. Com o passar do tempo, pela força da vocação e maturidade profissional, eles geralmente são contaminados pelas necessidades do mundo fenomenal interior e tornam-se excelentes educadores vivenciais, ideólogos da transformação pessoal não só de idéias, mas de pontos de vista e comportamentos. Fazem, paralelamente, ou transversalmente, o trabalho intelectual e o trabalho ideológico. Os que chegam nesse ponto-chave pulam da pedagogia para a andragogia[1], do importante para o essencial, da meia verdade para a verdade integral. Tornam-se, portanto, aliciadores, atividade delicada, que não é comum, de alto risco existencial, pois vai atingir não apenas as mentes, mas os destinos. Sócrates, Jesus e muitos de seus apóstolos, Hipácia, Giordano Bruno, Gandhi, Martin Luther King foram mortos por causa disso. Eram aliciadores de alto nível em épocas e circunstâncias altamente perigosas. Nós não corremos mais os riscos que eles correram, porque eles já abriram os caminhos. Na história recente do Brasil encontramos as figuras de Chico Mendes, caboclo da floresta e aliciador ambientalista; e de Betinho, sociólogo e aliciador da ética. Chico Mendes foi morto pela ambição e violência dos latifundiários, chamando a atenção do mundo na sua luta para salvar a Amazônia da devastação. Seu verbo preferido era a preservação. Betinho foi morto pelo descaso da saúde pública, vitimado pela AIDS, adquirida numa transfusão de sangue. Portador de uma doença sanguínea hereditária, a hemofilia, Betinho era também o famoso irmão do humorista Henfil, imortalizado na canção “O Bêbado e a equilibrista”. Exilado político durante o regime militar, amargou durante longos anos a saudade do país que tanto amava e quando voltou resolveu dedicar o resto de sua vida para educar o povo brasileiro para cidadania. Aliciador de intelectuais, comunicadores, artistas, políticos e principalmente das massas, Betinho desencadeou uma mobilização sem precedentes históricos para despertar nas pessoas uma atitude simples e que havia caído na indiferença dos brasileiros: a solidariedade. Seu verbo preferido era a doação: doação de terras, doação de sangue, doação de alimentos, doação de abrigo e principalmente doação de tempo para o trabalho voluntário. As idéias e campanhas ambientalistas e humanitárias de Chico Mendes e Betinho hoje são instituições sociais internacionalmente reconhecidas e referências curriculares obrigatórias no universo escolar.

O trabalho de aliciamento hoje é mais fácil, mas continua delicado e perigoso, bastando sermos imprudentes para estragar excelentes oportunidades de conscientização. Algumas circunstâncias são mais perigosas ainda. É crescente o número de professores que trabalham em ambientes sociais carentes e estão sendo alvo de agressões morais e físicas em todos o lugares do mundo. Essa violência tende a crescer a ponto de serem assassinados, caso não adotem posturas serenas e moderadas diante da insensatez natural dos adolescentes ou entrem de peito aberto em campanhas que contrariem interesses materiais criminosos. Falamos dessa forma porque sabemos que essas condições sociais e de trabalho dificilmente sofrerão mudanças em curto prazo.

A melhor imagem que guardamos do professor aliciador é a do protagonista John Keating, em “Sociedade dos Poetas Mortos”. No célebre filme de Peter Weir a espiritualidade é camuflada pela aparente frieza da cultura anglo-saxônica, mas transpira em forma de situações conflituosas vividas pelos alunos, pais e educadores. O roteiro também deixa no ar um enorme ponto de interrogação sobre as questões da vida e do destino, especificamente sobre a morte. O professor Keating é também um excelente transversor, pois despreza a todo instante a rigidez curricular e abandona a sala de aula, como uma metáfora de que ela não existe mais, não é mais essencial, como são as igrejas e templos, e que hoje já aprendemos a construir e freqüentar dentro de nós mesmos. Pretexto para atingir a introspecção, esse abandono da sala levaria a muitos outros caminhos que esse filme maravilhoso narra do começo ao fim. Um desses caminhos é a incursão ao hall onde estão expostas as fotografias de turmas antigas. Ali, como num panteão em memória dos mortos, o silêncio se estabelece e Keating parte para o aliciamento espiritual dizendo que aqueles jovens das fotografias, cheios de energia e vitalidade, se transformaram em adubo para flores de sepulturas. Apesar do aparente discurso niilista, a intenção do professor era causar um impacto na mente dos alunos e deslocá-los para o sentido metafísico da vida. Sua proposta de “Carpe diem” significava aproveitar a essência da vida e não o supérfluo e o banal.

Mas o grande acontecimento do filme é a desilusão e o suicídio do aluno Neil, fato que coloca o professor na difícil condição de Sócrates, acusado de corruptor da juventude e responsável pelo grave incidente. O pai rígido e autoritário e a mãe impotente e submissa sufocaram o talento artístico e o livre arbítrio do filho. A existência de uma arma de fogo na casa deles consuma a tragédia. O fracasso da família e da Escola exige e elege um bode expiatório. Keating é o escolhido, ingere a cicuta, mas o seu aliciamento foi mais eficiente que o veneno da demissão, pois penetrou definitivamente nos corações dos alunos, mesmo dos covardes e traidores, que iriam carregar pelo resto de suas vidas a culpa de não terem sido leais, autênticos e corajosos. Eles não tiveram a coragem de subir nas mesas para se despedirem do Capitão e continuar olhando as coisas por outro ponto de vista. Um detalhe importante: Keating tinha sido aluno daquela escola e voltou para reencontrar-se consigo mesmo e com algumas pendências dos velhos tempos. Conosco acontece a mesma coisa: voltamos nessa ou noutra existência para fazer as pazes com o passado. Professores e alunos são cúmplices e quando os papéis não são exercidos de maneira coerente essa cumplicidade gera débitos mútuos. É assim que funciona também na relação entre pais e filhos. Pela lei de ação e reação e também pela lei da reencarnação tudo fica relativo e a inversão de papéis e situações se encarrega de colocar as coisas nos devidos lugares. Nossas recaídas mais doloridas na função docente são aquelas que são estimuladas pelas reações de rebeldia, revelando o aluno de ontem que ainda vive dentro de nós. Uma frase famosa, pronunciada constantemente nas escolas, diz o seguinte: “Os professores são uma classe desunida”, dita por nós mesmos. Ou então essa, dita constantemente pelos gestores: “Têm professores que dão mais trabalho que os alunos”. Realmente, como seres humanos comuns, temos graves problemas de ordem ética, política e psicológica. Isso também revela um aspecto importante da nossa profissão: nós não aceitamos a nossa condição; temos vergonha de ser professores; temos uma visão distorcida da nossa auto-imagem pessoal e profissional, um grave desvio na auto-estima, que os psicólogos e teóricos da personalidade chamam de “incongruência”, ou seja, navegamos em fuga numa enorme distância entre o real e o ideal, aquilo somos versus aquilo que queremos ser. A tradição diz que somos uma elite quase sacerdotal, mas a realidade informa que somos membros de classe socialmente proletarizada e sem nenhum prestígio. Para agravar o problema, por cultivarmos uma imagem de autoridade e superioridade moral e intelectual, somos constantemente vítimas de provocações e comentários jocosos daqueles que, por alguma razão desconhecida, traumas de infância, se incomodam com a nossa condição e sentem uma enorme satisfação em nos humilhar e provar que, na verdade, somos frágeis e propensos ao fracasso. Os sacerdotes assumidos, bem como os educadores experientes, já aprenderam a conviver com esses ossos do ofício; os professores imaturos, não. Estamos certamente divididos entre a veneração e o desrespeito, alimentando ao mesmo tempo um certo orgulho e um complexo de inferioridade. Aliás, esse é o traço principal dos Espíritos inferiores que flutuam na erraticidade do mundo espiritual, entre os quais estamos incluídos, independente da profissão que exerceram quando encarnados, nos mais diversos graus de condições. Uns padecem num longo sono narcísico, fingindo que não sofrem. Outros sofrem e querem fazer com que os outros também sofram as incongruências e contradições das suas atitudes perante si mesmos. Por isso reencarnamos sempre em situação conflituosa, marcando encontros dolorosos com as decepções e desencantos. Esse é o ciclo vicioso das reencarnações ensinado há milênios pelas filosofias espiritualistas orientais e cujo ponto nevrálgico é o desejo e a ilusão
[2].

Estamos diante de uma nova realidade de crises e conflitos que só poderá ser neutralizada, em parte, pela força da espiritualidade. E esta, como toda força natural, deve ser manipulada com conhecimento e aplicada com muita propriedade. A nossa vantagem é que, estando mais próximos nas relações afetivas com os alunos e seus familiares, gozamos de relativo amparo social e grande proteção espiritual, apesar dos riscos naturais e cármicos das situações em que nos envolvemos. Como se sabe, não ingressamos nessa profissão por acaso. Certa vez um jovem colega professor, formado em sociologia, e que hoje é advogado, nos disse que desejava deixar a profissão docente, mas todas as tentativas fracassavam. Angustiado, apelou então para a espiritualidade e ficou sabendo que essa sua permanência no magistério tinha tempo definido por ele mesmo antes de reencarnar. Disseram-lhe que na existência anterior tinha sido um eficiente agitador político, causando danos na vida de muitas pessoas envolvidas por seus planos radicais e fantasiosos. Muitas dessas pessoas que acreditaram em suas promessas estavam entre seus atuais alunos. Mesmo contrariado, foi realizando a sua tarefa até que um decreto oficial acabou com a disciplina (Educação , Moral e Cívica) que ele ministrava com muito talento numa conceituada rede particular. Depois tentou dar aulas de História, mas não se adaptava, não agradava. A última vez que nos encontramos estava iniciando o curso de Direito, certamente partindo para outra etapa da sua tarefa de resgate.

Depois dessa experiência com esse colega consultamos diversas vezes a espiritualidade sobre os nossos compromissos ( Quem sabe não receberíamos a resposta do tipo “Você só tem mais alguns anos...”). Em todas as consultas, com diferentes médiuns, a resposta sempre vinha assim, ríspida e lacônica: “Realizar trabalho específico, tarefa de divulgação evangélico-doutrinária, através da vivência cristã”. Demorou muito para cair a ficha e percebermos que esse detalhe em negrito não se tratava apenas de escrever e publicar discursos teóricos sobre cristianismo e espiritismo. Mas como esse compromisso cármico não é exclusividade dos professores, mas também dos profissionais de saúde, de segurança, enfim profissões que lidam com o público, pelo menos temos a possibilidade de buscar alternativas para aprender a lidar com tais situações. Uma dessas alternativas é a sintonia e ajuda de forças espirituais voltadas para o sistema educacional.



[1] Educação esotérica direcionada aos espíritos maduros, psicologicamente adultos e potencialmente aptos a receber lições probatórias da inteligência pessoal e emocional. Na educação andragógica observa-se sempre, pela relatividade de condições proporcionadas pela lei da reencarnação, que há crianças que são adultas e adultos que são crianças.
[2] Recomendamos sempre aos nossos alunos e amigos educadores, principalmente os que não gostam de religião ou religiosidade, que busquem como reflexão e vivência o Budismo, uma filosofia maravilhosa elaborada e exemplificada por um dos mais admiráveis avatares ( educadores cósmicos) encarnados na Terra. Lendo apenas a biografia do príncipe Sidartha já encontramos nesse poema de vida lições preciosas dos conflitos entre o Espírito e a matéria.

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