01/12/2007

Ser, o verbo do Espírito


Esperamos que essas poucas páginas, certamente uma oportunidade dada por amigos espirituais generosos, possam ter alguma utilidade no trabalho dos nossos colegas educadores de boa vontade, principalmente como repercussão de ajuda para os alunos e suas famílias. Pedimos desculpas e tolerância pelos erros identificados pelos colegas mais experientes e a atenção de todos os que buscam, como nós, algumas respostas que o conhecimento tradicional não proporciona. Trata-se de uma reflexão sobre alguns problemas da educação na atualidade sob a ótica espiritual, baseadas em nossa vivência escolar, iniciada em 1986, na cidade de São Paulo. Não é uma visão religiosa, mas puramente filosófica, de intenção moral, sem moralismo. Somamos também, como muita alegria, o tempo dedicado à divulgação doutrinária, a partir de 1979, na Baixada Santista, como expositor em trabalhos de assistência espiritual e cursos sistematizados para jovens e adultos. Nesse tempo, talvez insignificante se comparado às grandes realizações missionárias, aprendemos como funciona um dos mais eficientes meios de educação: o aliciamento espiritual, ou seja, a capacidade de seduzir pelo exemplo e atrair para o nosso ideal, aqueles que estão ideologicamente neutros, indecisos, insatisfeitos ou em situação oposta, adversária.

Na polaridade comportamental vulgar, o aliciamento é atividade ilícita, proibida, pois é faca de dois gumes, magia dúbia e perigosa. Na transformação comportamental em ambiente materialista o aliciamento espiritual também é proibido, muitas vezes ilícito e inconveniente, do ponto de vista político e ideológico. Porém é autêntico, “sim, sim; não, não”, pois deve ser feito com convicção, consciência e responsabilidade em relação aos objetivos pretendidos. Nas parábolas de Jesus, os aliciadores aparecem sempre dessa forma: chegam sem avisar para surpreender seus alvos, enfraquecendo suas resistências, diante de propostas transformadoras. Foi dessa forma que ele seduziu os discípulos, que se transformaram mais tarde em apóstolos. A expressão “pescar almas” define muito bem o processo de aliciamento espiritual, no qual não se usa palavras vazias, nem argumentos ilusórios, mas atitudes autênticas que repercutem como exemplos ou propostas diretas. Ao contrário das palavras ocas e propostas sofismáticas, que só atingem a superfície intelectual da mente, o aliciamento espiritual, embora indireto e subjetivo na linguagem, atinge, pelo exemplo, os sentimentos e estes estão mais próximos da ação e da conseqüente transformação. E foi exatamente isso que fomos percebendo ao tentarmos difundir a espiritualidade. A timidez, a cautela e o medo sempre nos impedia de falar e argumentar sobre o assunto em lugares neutros e proibidos, mas sempre aparecia oportunidades para a abordagem sutil, além dos mecanismos racionais defensivos, localizados no campo mais íntimo das necessidades mais profundas do ser e da existência. Essas janelas nem sempre estão abertas para os olhares interesseiros do proselitismo, mas sempre escancaradas para os olhares interessados da exemplificação.

O Espiritismo, como idéia filosófica, surgiu no século XIX e logo gerou um intenso movimento social, pela ação dinâmica do seu fundador, Allan Kardec, e seus colaboradores. Fundaram então a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e logo depois a Revista Espírita, onde faziam experiências, estudavam a doutrina e divulgavam para a opinião pública as informações a respeito de tudo o que acontecia na França e nos demais países onde existiam núcleos espíritas. Assim, sempre entendemos que o Espiritismo e o seu movimento possuem uma relação dinâmica de causa e efeito. Quem assimila integralmente os conhecimentos espíritas coloca inevitavelmente em prática esses princípios, cada qual com seus ritmos e limites. Assimilar integralmente não é somente se apropriar intelectualmente das teorias espíritas, pois isso é apenas um aspecto parcial da aprendizagem. Somente quando o conhecimento passa da fase do pensamento e atinge a fase do sentimento e da ação é que ocorre essa integração. Do contrário, ficamos apenas na teoria, nos livros, conversas, palestras, congressos, ou seja , na superfície intelectual e, conseqüentemente, não colocamos em prática essas idéias. Colocar em prática significa vivenciar, experimentar nas ações reais, em forma de atitudes e expressão de sentimentos. Quem possui experiência vivencial de Espiritismo sabe do que estamos falando e sabe que essa doutrina só se propaga de maneira autêntica na sociedade quando os espíritas dão autênticos exemplos de conduta e não apenas quando difundem suas idéias.

É dessa forma que enxergamos a presença da Espiritualidade nos ambientes não espiritualizados. E nas escolas essa presença vivencial atualmente torna-se imprescindível , pois os discursos teóricos, como todos os demais, não têm repercussão de autenticidade significativa. Por isso, o melhor veículo para divulgação da Espiritualidade nas Escolas não são os programas, os currículos, muito menos os conteúdos filosóficos. O melhor veículo é o próprio educador, que é simultaneamente portador de todo esse aparato intelectual e detentor de algo mais valioso, que é o seu próprio exemplo moral.

De todas essas experiências, a que pretendemos destacar aqui é a Educação Vivencial, forma peculiar e intransitiva que, ao nosso ver, melhor funciona na difusão das idéias de espiritualidade fora dos centros espíritas. Nos Quatro Pilares para a Educação do Futuro, elaboradas pela Unesco[1], há uma grande abertura para esse tipo de educação. Esses pilares (aprender a Conhecer, Fazer, Conviver e Ser) são mais do que verbos idealizados, mas verdadeiros instrumentos práticos e transformadores da pessoa, inspirados por inteligências espirituais superiores. Muitos educadores ficam perplexos com a precisão e a síntese desses princípios, mas se frustram porque logo percebem que tais idéias não conseguem ser aplicadas nas escolas, pelos motivos e obstáculos que todos nós conhecemos. São idéias tão simples e inteligentes que provocam a desconfiança e o desdém dos burocratas, acostumados com as coisas complicadas e ineficientes.

Uma escola nova, de estrutura simples e compacta, de mentalidade aberta e corajosa certamente conseguiria colocar em prática esse fabuloso currículo dos Quatro Verbos. Neles, encontramos a possibilidade de domínio da tecnologia material, de extensão do corpo biológico; e também a tecnologia psíquica, extensão da mente ou do núcleo individual do Espírito. Ali não estão contempladas apenas as experiências intelectuais, mas também as complexas vivências do Ser Eterno. Aprender a Ser é um verbo dinâmico, que abre inúmeros caminhos para o progresso do Espírito. Trata-se do auto-conhecimento, ferramenta principal da evolução da espécie humana . Na experiência carnal, na infância e na juventude, o Espírito não é, como aparenta, indiferente ou impermeável aos apelos de transformação mental e moral. Crianças e jovens são realmente terrenos distantes e de difícil acesso, porém muito férteis e aptos para receber sementes de valores que só irão germinar no tempo futuro, na maturidade e na velhice, período que vão enfrentar as provas mais difíceis e dolorosas da existência. Mais ainda, na experiência pós-morte, essa habilidade é fundamental para a adaptação do Espírito em mundos onde não existe as aparências lógicas, predominando certamente a total transparência psicológica .


O Professor Lucificador

O ofício da docência é uma profissão onde temos o privilégio de iluminar Espíritos, os nossos alunos e nós próprios. Toda atividade que promove as criaturas trabalha em sintonia com as forças Divinas e naturalmente tem a marca da luz e da claridade. Na Epístola de Paulo aos Romanos (12 e 13), que fala sobre os dons espirituais, as virtudes dos cristãos e a obediência às autoridades, o grande idealizador da Igreja - como Escola de Vida e Convivência, e não como aparelho de Estado – preocupa-se, como judeu culto e cidadão romano experiente, exatamente em informar aos neófitos cristãos, incluindo os educadores, que essa tarefa é crucial e perigosa onde já existe estabelecido um sistema antagônico e oficial. Paulo recomenda atrevimento espiritual e ao mesmo tempo prudência civil. Mas o que nos chama a atenção são as categorias de dons espirituais ali apontadas e como elas devem ser vivenciadas. Todos esses dons são características típicas dos educadores: Profecia, Ministério, Ensino, Exortação, Contribuição, Presidência e Misericórdia. São palavras místicas e simbólicas, naturalmente traduzidas e alteradas com o passar dos séculos, para dar autenticidade particular às teologias católicas e protestantes, mas que, se interpretadas segundo “o espírito” e não “a letra”, como recomenda o célebre doutor, teremos uma ótima visão daquilo que Paulo tinha sobre a tarefa de educar. Em primeiro lugar está a Profecia, segundo a proporção da fé, o que para nós significa claramente a mediunidade responsável e suas múltiplas variedades e funções. Profetizar é sintonizar, estabelecer contato e comunicação com o mais Além, com o mundo espiritual, cuja habilidade do médium e característica do fenômeno depende da natureza da missão e da responsabilidade ou mandato mediúnico do portador do dom; depois vem o Ministério, que deve ser ministerial, específico, profissional, de conhecimento, domínio e competência da função e do cargo; depois o Ensino e Exortação, que “esmere-se ao fazê-lo”, de forma consciente, com dedicação plena, incondicional e ética; Contribuição, com liberalidade, ou seja, com desprendimento, sem visar vantagens pessoais, principalmente a auto-ego-salvação; Presidência, com a força da diligência, ou seja, da supervisão orientadora (e não fiscalista), do olhar coletivo do líder preocupado e centrado nos interesses do ideal e do crescimento do grupo, do bem comum; e finalmente a Misericórdia, que é alegria de fazer espontaneamente, sem esperar recompensa; enfim, a caridade, que é o valor máximo da educação cristã. Essas sete características estão embutidas no ofício diário do educador, sendo todas elas ações lucificadoras, que muitas vezes entra em conflito com as trevas dos interesses opostos, causando danos físicos e morais aos seus defensores e praticantes, porém de altos dividendos espirituais e evolutivos.

Esse trabalho, de aspecto sacerdotal e sagrado, no sentido espiritual, tem realmente um significado especial nos processos evolutivos, pois dele dependem vários fatores que podem transformar as pessoas e suas realidades. Quanto mais atrasado é o Espírito e mais obscuro o ambiente, maior é a importância do ensino e da educação, sendo os seus agentes dotados de responsabilidades a altura dessa missão. Como no exercício da mediunidade, os professores não são símbolos da perfeição, mas são representantes da Verdade e exercem verdadeiro mandato moral em suas atividades profissionais. Nossa função também se assemelha a dos profetas e sobre nossas cabeças, quando no exercício de lucificação, formam-se verdadeiras línguas de fogo. Os bons videntes podem confirmar essa característica no trabalho do educador. Isso nos torna especiais e também vulneráveis aos olhos dos lucifugos, seres reacionários e invejosos, afinizados com as trevas. Isto porque, durante as aulas, semeamos luzes em forma de frases e idéias marcantes e que vão repercutir durante longos anos na existência dos alunos e isso atrapalha muito os planos maléficos de vingança, obsessão, vampirismo e desvio de tarefas e responsabilidades. Essas luzes que plantamos neles, também acendem simultaneamente em nossas auras, mesmo que sejamos imperfeitos e frágeis. É uma conexão quântica, cósmica, a mesma que altera simultaneamente as menores partículas do átomo quando este sofre alguma modificação[2]. Na memória dos alunos essas informações lucificadas permanecem guardadas no inconsciente e sempre vêm à tona quando surgem as situações conflitantes da vida. Nós também fomos lucificados pelos nossos mestres antigos, que eram pessoas humildes, porém brilhantes, tanto que fomos atraídos naturalmente para a mesma profissão. Deles jamais esquecemos as expressões em forma de advertências e observações. Não é exagero dizer que professores são médicos da alma e nenhuma ironia sobre a nossa condição social operária e humilde pode ofuscar essa realidade espiritual, nem mesmo a inveja e prepotência dos insensatos que desafiam esse aspecto do nosso ofício. Aliás, em outras existências nós também éramos muito prepotentes e insensatos... Somos o que somos e não devemos nos render às coisas ruins e humilhantes que dizem de nós. Podemos acreditar, sim, em nossa vocação de formadores de caráter e co-autores de destinos. E isso nenhuma remuneração financeira pode pagar porque não possui valor monetário, de mercado. Educação não é e nunca foi mercadoria. O Ensino tornou-se uma mercadoria, podendo ser embalada num livro de teorias e ser vendida em qualquer esquina. A educação não pode ser comercializada porque não é compatível com o comércio. Educação não tem embalagem, nem rótulo; só tem conteúdo espiritual e este é imponderável para finalidades materiais. Existem, sim, falsos educadores, falsa educação, assim como existe o falso amor com a aparência e a sensação do sexo. Nossa função intelectual e técnica tem preço e deve ser bem remunerada. Isso é uma possibilidade política e social. Nossa postura, nossas atitudes e nossos exemplos, não. Estes não devem e não podem ser mensurados pelas aferições qualitativas, de peso, volume, cheiro, aparência, etc. Isso realmente não tem preço e somente a luz, como na experiência de realização artística, serve de recompensa pelo esforço despendido nessa função, ou melhor, nessa condição. Socialmente estamos professores, porém espiritualmente somos professores, portadores da candeia e difusores da luz. Como o Filho do Homem, estamos no mundo, muitas vezes sem ter nem mesmo onde recostar as nossas cabeças, mas sempre prontos para o sagrado ofício de educar.


[1] Educação, um tesouro a descobrir. Relatório Jacques Delors. Unesco.
[2] Segundo Carl Rogers, o Teorema do físico suíço J.S. Bell diz que cada evento está em conexão com todos os outros, sendo demonstrado que “partículas gêmeas,com o mesmo spin, poderiam ser separadas. Se o spin de uma dessas partículas é alterado, o spin da outra muda instantaneamente”.

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